Neurodesenvolvimento · 28 jun 2026
TDAH sem rótulo: o que uma avaliação cuidadosa muda
Entre o alívio de dar nome ao que se vive e o risco de dar esse nome cedo demais existe um caminho, que é a avaliação clínica feita com tempo, e é ela que faz o diagnóstico de TDAH passar a valer alguma coisa.
O bilhete da escola chega numa quarta-feira, dobrado dentro da agenda, sugerindo uma avaliação para TDAH. Você lê duas vezes e sente ao mesmo tempo um alívio, porque alguém finalmente deu nome ao que você já via em casa, e um incômodo que não passa, a dúvida sobre se é isso mesmo.
Atendo essa cena com frequência, e atendo também a sua versão adulta, quando a pessoa se reconhece num vídeo de trinta segundos e chega ao consultório perguntando se tem TDAH. As duas chegadas merecem a mesma resposta, que é olhar para o quadro com calma antes de qualquer conclusão.
O TDAH existe e não é invenção da nossa época
Começo pelo que a ciência tem de mais sólido. Em 2021, Stephen Faraone coordenou um consenso internacional assinado por 80 pesquisadores de 27 países, que reuniu 208 conclusões sobre o TDAH, cada uma delas sustentada por estudos com milhares de participantes ou por metanálises. O documento nasceu com um objetivo declarado, que era enfrentar a desinformação capaz de estigmatizar quem tem o transtorno e de atrasar o tratamento de quem precisa dele.
A prevalência ajuda a dimensionar o quadro. O pesquisador brasileiro Guilherme Polanczyk revisou com sua equipe 102 estudos, somando mais de 170 mil crianças e adolescentes de todas as regiões do mundo, e chegou a uma estimativa de 5,29%. O achado talvez mais interessante foi outro, porque a variação encontrada entre os países se explicava menos pela geografia e mais pelo método de cada estudo, o que mostra que o TDAH não é doença de país rico nem moda de rede social.
O sobrediagnóstico também existe
A conversa precisa amadurecer neste ponto, porque as duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo. Luise Kazda e sua equipe, na Universidade de Sydney, examinaram 334 estudos publicados ao longo de quatro décadas para responder a uma pergunta desconfortável, a de saber se há sobrediagnóstico de TDAH em crianças e adolescentes. A resposta veio em camadas, porque os diagnósticos de fato aumentaram, os casos novos tendem a se concentrar no extremo mais leve do espectro e, justamente nesses casos mais leves, os poucos estudos disponíveis sugerem retornos decrescentes, situação em que os danos do rótulo e do tratamento podem acabar superando os benefícios.
O problema nunca esteve em dar nome ao sofrimento, e sim em dar esse nome antes de conhecer a história de quem sofre. Um detalhe do trabalho de Kazda mostra bem o tamanho da nossa ignorância, porque, das centenas de pesquisas revisadas, apenas cinco avaliaram diretamente o balanço entre benefício e dano nos casos mais leves. A honestidade científica pede que se reconheça em voz alta o quanto ainda sabemos pouco sobre essa fronteira, e essa é mais uma razão para não atravessá-la com pressa.
Como é uma avaliação cuidadosa de TDAH
Não existe exame de sangue, teste on-line ou imagem cerebral capaz de confirmar o TDAH, e é por isso que a qualidade da avaliação clínica pesa tanto no resultado. Pelos critérios diagnósticos atuais, os sintomas precisam ter aparecido na infância, precisam estar presentes em dois ou mais ambientes, como a casa e a escola ou a casa e o trabalho, e precisam causar um prejuízo claro no funcionamento da pessoa. Na prática, isso exige tempo, mais de uma consulta, a escuta de mais de um informante, a leitura de boletins e relatórios escolares e a exclusão paciente de tudo aquilo que imita a desatenção, como as noites mal dormidas, a ansiedade, a depressão, o luto e a sobrecarga de quem carrega a casa inteira nas costas.
Em adultos, o trabalho é quase arqueológico, porque envolve reconstruir a infância com boletins antigos, histórias de família e memórias de quem conviveu com a pessoa naquele período. Os questionários e as escalas ajudam a organizar a conversa, embora não substituam esse percurso. Avaliar com calma acaba protegendo as duas pontas, tanto a criança que precisa do diagnóstico e não o recebe quanto aquela que recebe o diagnóstico de que não precisava.
O que muda depois da resposta
Quando o diagnóstico se confirma, ele abre portas bastante concretas, porque dá acesso a um tratamento com boa evidência, a ajustes na escola e no trabalho e a uma psicoeducação que ajuda a família inteira a entender o que está acontecendo e o que não está. Quando o diagnóstico não se confirma, também não se perde nada, porque o sofrimento que motivou a busca continua real e passa a ser investigado pelo nome certo e com o cuidado certo. O rótulo sozinho não realiza nenhuma dessas coisas, já que quem as realiza é o processo que vem antes e depois dele.
Se essa dúvida mora na sua casa, um bom começo é anotar, ao longo de duas semanas, três situações concretas em que a atenção falhou, registrando onde elas aconteceram, que horas eram e o que havia ao redor. Esse caderno simples costuma dizer mais do que qualquer teste de internet, e ele transforma a primeira consulta num ponto de partida em vez de um interrogatório.
Perguntas frequentes
Existe exame para diagnosticar TDAH?
Não existe. O diagnóstico de TDAH é clínico e depende de uma entrevista detalhada, da história de vida, de informações vindas de mais de um ambiente, como a casa, a escola ou o trabalho, e da exclusão de outras causas para os sintomas. As escalas e os questionários organizam a investigação, embora não fechem o diagnóstico sozinhos.
Adulto pode receber diagnóstico de TDAH?
Pode sim. O TDAH começa na infância, mas muitas pessoas só passam por uma avaliação já na vida adulta. Nesses casos, a avaliação reconstrói a história desde a infância, com boletins escolares, relatos de familiares e a linha do tempo dos prejuízos, antes de chegar a qualquer conclusão.
Quanto tempo demora uma avaliação de TDAH?
O tempo varia de pessoa para pessoa. Em geral a avaliação envolve mais de uma consulta, além do período necessário para reunir informações da escola, da família ou do trabalho. Diagnósticos fechados em poucos minutos e sem história clínica merecem desconfiança.
Referências
- FARAONE, S. V. et al. The World Federation of ADHD International Consensus Statement: 208 evidence-based conclusions about the disorder. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, v. 128, p. 789-818, 2021. DOI: 10.1016/j.neubiorev.2021.01.022. PMID: 33549739.
- POLANCZYK, G. et al. The worldwide prevalence of ADHD: a systematic review and metaregression analysis. The American Journal of Psychiatry, v. 164, n. 6, p. 942-948, 2007. DOI: 10.1176/ajp.2007.164.6.942. PMID: 17541055.
- KAZDA, L. et al. Overdiagnosis of attention-deficit/hyperactivity disorder in children and adolescents: a systematic scoping review. JAMA Network Open, v. 4, n. 4, e215335, 2021. DOI: 10.1001/jamanetworkopen.2021.5335. PMID: 33843998.
- AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5-TR. 5. ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.