MARCELO GOBBO JR.Artem Curant Medicina de Família e Saúde Mental ← Início

ESG, saúde e cidadania

Ninguém adoece, nem sara, sozinho

Aprendi, no consultório e fora dele, que a saúde de uma pessoa é quase sempre a saúde dos sistemas em que ela vive. Esta página reúne a ideia que sustenta o meu trabalho e o que faço com ela dentro das instituições.

Dr. Marcelo Gobbo Jr.

Atendo há tempo suficiente para reconhecer quando um problema clínico não cabe dentro do corpo que está na minha frente. A pressão que não estabiliza apesar da medicação certa, o sono que não vem numa casa barulhenta e insegura, a criança que não rende na escola porque falta água limpa em casa. O diagnóstico mora numa pessoa, mas as causas costumam morar no bairro, no trabalho, no ar e na rede de gente que a cerca. Quando eu trato só o corpo e devolvo a pessoa ao mesmo sistema que a adoeceu, o problema volta.

A saúde começa longe do consultório

Essa intuição de quem atende tem nome e evidência. Em 2008, uma comissão da Organização Mundial da Saúde presidida por Michael Marmot, um epidemiologista britânico que passou a carreira medindo desigualdade, resumiu anos de pesquisa numa frase que virou lema, fechar a lacuna em uma geração. A conclusão era incômoda e simples, a maior parte do que determina se alguém vive mais ou menos, com mais ou menos sofrimento, está fora do sistema de saúde, nas condições em que a pessoa nasce, cresce, trabalha e envelhece.

Sete anos depois, em 2015, uma comissão da Fundação Rockefeller com a revista The Lancet foi um passo adiante e lembrou que essas condições sociais dependem, elas mesmas, da saúde dos sistemas ecológicos. Não existe população saudável em um planeta doente. É por isso que o vocabulário do ESG, o ambiental, o social e a governança, deixou de me soar como jargão corporativo. Para quem cuida de gente, essas três letras são a gramática de quem adoece e de quem consegue se recuperar.

E
Ambiental
O ar, a água, o clima e o território que a pessoa habita chegam ao consultório como sintoma antes de virarem estatística.
S
Social
Renda, trabalho, moradia, vínculo e pertencimento decidem, em boa parte, quem tem a chance de ficar bem.
G
Governança
As regras e as mesas onde se decide como o cuidado é distribuído determinam se a equidade sai do papel.

O que aprendi em Yale sobre cidadania

Levei essa pergunta para um estágio no Program for Recovery and Community Health, na Universidade Yale, um centro que estuda como pessoas que vivem com transtorno mental grave voltam a ter vida, e não apenas sintomas controlados. Foi ali que me formei na ideia de cidadania em saúde mental que Michael Rowe, psicólogo e pesquisador da casa, desenvolveu ao longo de anos e reuniu no seu livro de 2015. Para ele, pertencer se constrói em cinco eixos concretos, direitos, responsabilidades, papéis, recursos e relações, sustentados por um sexto elemento mais difícil de medir, o sentimento de fazer parte.

Essa lente mudou o modo como escuto. Estabilizar um quadro é o começo do trabalho e não o seu fim, porque saúde, no fundo, é a possibilidade de a pessoa voltar a ocupar um lugar entre os outros. Recuperar-se é reencontrar um papel, uma rede, um projeto próprio de vida. O que a medicina de família já me ensinava sobre o vínculo longo, Yale me deu como método, cuidar é devolver alguém à cidade, não só à consulta.

Cuidar de uma pessoa é cuidar, também, do mundo em que ela precisa caber.

Da ideia à mesa onde se decide

Uma tese que fica só no consultório alcança uma pessoa de cada vez. Por isso escolhi ocupar também os espaços onde o sistema se desenha. Como consultor do Instituto Afya, ajudo quem forma médicos e organiza a saúde em escala a transformar boa intenção em impacto social com método, desenhar a intencionalidade desse impacto e medir os seus resultados, para que os determinantes sociais, a saúde mental e o cuidado longitudinal entrem de fato na educação médica e na gestão. Como membro do conselho e membro fundador do Instituto Unimed Uberlândia, ajudo a construir governança e impacto social na minha própria cidade, no lugar onde eu atendo, onde as decisões têm rosto e sobrenome conhecidos.

Governança, vista de perto, não é burocracia, e sim a maneira de fazer com que uma boa intenção clínica continue funcionando depois que eu saio da sala.

Ubuntu, uma assinatura

Existe uma palavra vinda das línguas bantu do sul do continente africano que carrega tudo isso melhor do que qualquer relatório, ubuntu. Os provérbios nguni a resumem numa frase, umuntu ngumuntu ngabantu, a pessoa é pessoa através das outras pessoas, que o filósofo bantu John Mbiti, do povo kamba, verteu para o nosso ouvido como eu sou porque nós somos. O filósofo sul-africano Mogobe Ramose, uma das vozes contemporâneas do pensamento bantu, vai além e descreve o ubuntu como uma filosofia do próprio ser, um ser que não se define isolado, mas como relação e movimento, e que só se realiza no encontro com a comunidade viva, com os que vieram antes e com a terra que o sustenta. É uma ideia antiga e, ao mesmo tempo, a mais contemporânea das ideias em saúde, a de que a pessoa não existe fora dos vínculos e dos sistemas que a cercam, e que a saúde de cada um é inseparável da saúde do todo, das outras pessoas, das instituições e do próprio ambiente.

Não é uma intuição isolada. O arcebispo sul-africano Desmond Tutu fez do ubuntu uma gramática da reconciliação; o filósofo nigeriano Ifeanyi Menkiti sustentou que é a comunidade que constitui a pessoa como pessoa; e o ganês Kwame Gyekye lembrou que reconhecer isso não anula o indivíduo, apenas o devolve ao seu tecido de vínculos. De tradições africanas distintas, convergem todos para a mesma recusa de pensar alguém apartado da rede que o sustenta. E, na língua em que escrevo, o filósofo moçambicano Severino Ngoenha, ao lado de interlocutores como José Castiano, faz dessa relação uma questão de cidadania, ao definir a própria democracia como a inserção de cada indivíduo no seio da sociedade e a sua participação integral na vida dela. A dimensão ecológica dessa mesma relação encontra voz em autores bantu. A queniana Wangari Maathai, do povo kikuyu e Prêmio Nobel da Paz, escreveu que somos chamados «a ajudar a Terra a curar as suas feridas e, nesse processo, a curar as nossas, e a abraçar toda a criação em sua diversidade, beleza e encanto»; e o filósofo ruandês Alexis Kagame dedicou a sua obra à filosofia bantu do ser, um ser que não se concebe isolado, mas como força viva em relação com as demais forças da vida.

É essa a assinatura do meu trabalho, enxergar a pessoa inteira dentro dos sistemas em que ela vive. Se você chegou até aqui e essa forma de ver o cuidado conversa com o que você procura, seja num consultório, numa instituição ou num projeto, vamos conversar. As melhores ideias sobre cuidado, quase sempre, nascem de uma boa conversa entre pessoas que não aceitam cuidar de metade.

Trajetória de impacto

  • Instituto AfyaConsultor de impacto social, com foco em estratégia e mensuração de resultados na educação médica e na saúde mental.
  • Instituto Unimed UberlândiaMembro do conselho e membro fundador, dedicado à governança e ao impacto social na cidade.
  • Yale UniversityFormação em citizenship no Program for Recovery and Community Health.

Medicina de Família e Comunidade · CRM-MG 74.511 · RQE 69038 · mestre em Psicologia pela UFU

Referências

  1. MARMOT, M. et al. Closing the gap in a generation: health equity through action on the social determinants of health. The Lancet, v. 372, n. 9650, p. 1661-1669, 2008. Comissão sobre Determinantes Sociais da Saúde da OMS. DOI: 10.1016/S0140-6736(08)61690-6.
  2. WHITMEE, S. et al. Safeguarding human health in the Anthropocene epoch: report of The Rockefeller Foundation-Lancet Commission on planetary health. The Lancet, v. 386, n. 10007, p. 1973-2028, 2015. DOI: 10.1016/S0140-6736(15)60901-1.
  3. ROWE, M. Citizenship and Mental Health. Oxford: Oxford University Press, 2015. Program for Recovery and Community Health, Yale University.
  4. MBITI, J. S. African Religions and Philosophy. Londres: Heinemann, 1969.
  5. RAMOSE, M. B. African Philosophy Through Ubuntu. Harare: Mond Books, 1999.
  6. TUTU, D. No Future Without Forgiveness. Nova York: Doubleday, 1999.
  7. MENKITI, I. A. Person and Community in African Traditional Thought. In: WRIGHT, R. A. (ed.). African Philosophy: An Introduction. Lanham: University Press of America, 1984.
  8. GYEKYE, K. Tradition and Modernity: Philosophical Reflections on the African Experience. Nova York: Oxford University Press, 1997.
  9. NGOENHA, S. E. Os Tempos da Filosofia: Filosofia e Democracia Moçambicana. Maputo, 2004.
  10. MAATHAI, W. Nobel Lecture. Oslo: The Nobel Foundation, 2004.
  11. KAGAME, A. La Philosophie bântu-rwandaise de l'Être. Bruxelas: Académie Royale des Sciences Coloniales, 1956.
Dr. Marcelo Gobbo Jr.

Dr. Marcelo Gobbo Jr.
Médico de Família e Comunidade (CRM-MG 74.511 · RQE 69038), mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia, com estágio no Program for Recovery and Community Health, em Yale. Atende famílias atípicas e pessoas que convivem com o transtorno mental grave, no consultório e à distância.

Se essa forma de cuidar faz sentido para você, será um prazer te receber. Presencialmente em Uberlândia ou por videoconferência, de onde você estiver, no Brasil ou no mundo.

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