O médico
O médico que caminha ao lado
Quem escreve aqui, o caminho que me trouxe até este consultório e o que ele mudou no jeito como eu escuto.
Se você chegou até aqui, é bem provável que queira saber quem é a pessoa do outro lado da sala antes de marcar uma consulta. Acho justo, e é o que vou contar aqui. Sou médico de família e comunidade, formado em 2017, e desde a graduação dedico minha formação e minha prática à saúde mental.
Se eu tivesse que resumir em uma frase o que quase uma década de consultório me ensinou, seria que a pessoa sentada na minha frente raramente é a única envolvida no que ela veio me contar. Uma criança que não dorme costuma chegar junto com uma casa que já não dormia antes dela. E quando um adulto volta a piorar, quem está em volta quase sempre cansou primeiro. O prontuário abre no nome de uma pessoa, e o sofrimento raramente cabe ali dentro.
Foi isso, repetido ano após ano, que organizou tudo o que veio depois. Cada etapa que vem a seguir foi uma tentativa de responder à mesma pergunta por outro ângulo, que é como cuidar de alguém sem separar essa pessoa de quem vive com ela.
Onde isso começou
Estudei Medicina na Universidade Federal de Uberlândia e me formei em 2017. Desde os anos de graduação a saúde mental deixou de ser uma das disciplinas do currículo e virou o assunto que eu procurava em todos os estágios. Nesse caminho, cuidei de pessoas em sofrimento psíquico no consultório e à distância, individualmente e em grupo, incluindo seis anos dedicados a um ambulatório de saúde mental.
Seis anos no mesmo ambulatório fazem com um médico uma coisa que nenhum curso faz. Você para de ver episódios e começa a ver trajetórias. Vê a mesma pessoa em crise, depois estável, depois de volta, depois estável de novo por muito mais tempo, e aprende que o que sustenta o intervalo bom quase nunca é apenas o ajuste da medicação. É a irmã que passou a acompanhar as consultas, é o trabalho que aceitou um horário diferente, é a vizinha que percebe antes de todo mundo quando alguma coisa começa a mudar.
Antes da medicina, um violino
Antes de qualquer coisa que esteja no meu currículo, houve um violino. Comecei a estudar aos nove anos e nunca parei, e digo sem nenhum exagero que boa parte do que sei sobre escutar aprendi ali, muito antes da faculdade. Quem toca em conjunto descobre cedo que o instrumento mais importante não é o seu. Você passa a maior parte do ensaio ouvindo os outros para saber onde entrar, quando sustentar e quando ficar quieto.
Tem também a parte chata, que é a repetição. Você toca a mesma passagem trinta vezes sabendo que o ganho de hoje vai ser pequeno e que ele só aparece meses depois. Isso se parece bastante com acompanhar alguém em tratamento. As consultas em que nada de espetacular acontece são exatamente as que constroem o resultado que vai ficar visível lá na frente.
Por que escolhi medicina de família
Fiz residência em Medicina de Família e Comunidade na Fundação Pio XII, e escolhi essa especialidade porque nela o tempo é instrumento de trabalho, e não um obstáculo a vencer. Barbara Starfield, pediatra e pesquisadora da Johns Hopkins que passou a vida medindo o que a atenção primária faz com a saúde de uma população, mostrou em 2005, junto com Leiyu Shi e James Macinko, que sistemas de saúde organizados em torno da atenção primária adoecem e matam menos, e distribuem saúde de forma mais equitativa, dentro e entre países. O mecanismo que ela descreveu não é tecnológico. É relacional.
Treze anos depois, em 2018, um grupo liderado por Denis Pereira Gray, médico de família inglês, revisou 22 estudos de nove países com culturas e sistemas de saúde muito diferentes entre si e encontrou que, em dezoito deles, quanto maior a continuidade do cuidado com o mesmo médico, menor a mortalidade dos pacientes. Os próprios autores fizeram questão de registrar a conclusão desconfortável para uma medicina apaixonada por tecnologia, que, apesar de avanços técnicos sucessivos e substanciais, os fatores interpessoais continuam importando.
Conhecer alguém há anos não é um detalhe simpático da consulta. É parte do que faz a consulta funcionar.
A psicologia entrou pela porta da pesquisa
Sou mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia. Voltei à mesma universidade onde me formei médico, dessa vez pelo outro lado do corredor, porque havia perguntas que a minha formação clínica não estava dando conta de responder sozinha, como se mede sofrimento, como se descreve o que acontece dentro de uma família quando um de seus membros adoece e o que muda numa pessoa quando ela deixa de ser tratada como um diagnóstico ambulante.
O mestrado me deu método para não confiar cegamente na minha própria impressão clínica, que é a coisa mais fácil de fazer e a mais perigosa. Desde então, quando escrevo ou aconselho, procuro saber de onde vem cada afirmação antes de repeti-la.
As mulheres que me ensinaram a olhar
Minhas referências mais fortes na psiquiatria não são as que aparecem primeiro nos livros-texto. A principal delas é Nise da Silveira, médica alagoana que, ao chegar ao hospital psiquiátrico do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, se recusou a aplicar o que na época era considerado o que havia de mais avançado, a lobotomia e o eletrochoque. Em 1946 ela criou ali a Seção de Terapêutica Ocupacional, onde os pacientes pintavam e modelavam em vez de serem contidos, e em 1952 fundou o Museu de Imagens do Inconsciente, que guarda até hoje milhares dessas obras. Ela não estava fazendo entretenimento de enfermaria. Estava afirmando que aquelas pessoas tinham mundo interno, e que valia a pena olhar para ele.
O que eu aprendi com ela não é uma técnica, é uma postura. Nise passou a carreira discordando por escrito e na prática de um consenso que humilhava quem deveria proteger, e sustentou essa discordância por décadas dentro da própria instituição que a contrariava. Sempre que eu me pego prestes a aceitar uma conduta só porque é o que todo mundo faz, é dela que eu lembro.
Os gatos, e por que eles entram nessa história
Nise também levou animais para dentro do hospital e os chamou de coterapeutas, e escreveu sobre isso em Gatos, a emoção de lidar, publicado em 1998. A ideia dela é menos fofa e mais séria do que parece, porque o que a relação com um bicho oferece a alguém muito adoecido é uma forma de vínculo que não exige explicação, não cobra desempenho e não interpreta o que você diz.
Confesso um interesse pessoal no assunto, porque sou gateiro convicto. Quem divide a casa com gato sabe que não existe convencer gato de nada. Você aprende a esperar, a não invadir, a reparar em sinais pequenos e a entender que confiança se constrói no ritmo do outro e não no seu. Não é a pior escola do mundo para quem vai passar a vida sentado à frente de pessoas que chegam desconfiadas e com bons motivos para isso.
Yale, e três palavras que eu trouxe de lá
Fui pesquisador visitante do Program for Recovery and Community Health, na Universidade Yale, um centro que estuda como pessoas que vivem com transtorno mental grave voltam a ter vida, e não apenas sintomas controlados. Voltei de lá com três palavras que não têm tradução confortável para o português e que hoje organizam o meu jeito de trabalhar, recovery, peer support e citizenship.
Recovery não quer dizer cura, e é justamente por isso que traduzir por recuperação atrapalha mais do que ajuda. Quer dizer que uma pessoa pode reconstruir uma vida com sentido, com vínculos, trabalho e projeto, mesmo convivendo com um transtorno grave, e que o tratamento precisa ser medido também por isso, e não apenas pela remissão dos sintomas. Isso mudou a pergunta que eu faço no fim da consulta. Não é só se os sintomas melhoraram, é o que voltou a ser possível na vida dessa pessoa desde a última vez que nos vimos.
Peer support é o cuidado oferecido por quem já viveu aquilo. Larry Davidson e colegas do próprio programa revisaram em 2012 a evidência e a experiência acumuladas com equipes que incluem pessoas com transtorno mental na função de cuidar, e descreveram efeitos concretos, entre eles maior vinculação ao tratamento e menos idas à emergência e ao hospital. O que essas pessoas oferecem, e nenhum diploma oferece, é a prova viva de que existe vida depois do pior momento.
Citizenship é onde as duas primeiras desembocam, e foi a que mais mexeu comigo, porque dá nome à ideia que eu vinha tateando no ambulatório sem conseguir formular. Michael Rowe, psicólogo e pesquisador da casa, descreve o pertencimento como algo que se constrói em cinco eixos concretos, direitos, responsabilidades, papéis, recursos e relações, sustentados por um sexto elemento mais difícil de medir, o sentimento de fazer parte.
Essa lente mudou o modo como eu conduzo uma consulta. Estabilizar um quadro passou a ser o começo do trabalho e não o seu fim, porque a pergunta seguinte, a que realmente interessa para quem está vivendo aquilo, é se a pessoa vai conseguir voltar a ocupar um lugar entre os outros.
Ubuntu, a palavra que faltava
A formulação que eu trouxe de Yale ganhou nome definitivo quando encontrei o pensamento bantu. Existe nas línguas bantu do sul do continente africano uma palavra que carrega tudo isso melhor do que qualquer relatório, ubuntu, resumida no provérbio nguni umuntu ngumuntu ngabantu, a pessoa é pessoa através das outras pessoas, que o filósofo John Mbiti verteu para o nosso ouvido como eu sou porque nós somos. Mogobe Ramose, filósofo sul-africano, vai adiante e descreve o ubuntu como uma filosofia do próprio ser, um ser que não se define isolado e só se realiza no encontro com a comunidade viva.
Chamo isso de assinatura porque é o que está por baixo de cada decisão que eu tomo na sala, e é também o que me tirou do consultório para trabalhar com governança, educação médica e impacto social. Contei esse percurso inteiro em ESG, saúde e cidadania.
A família como unidade de cuidado
Sou pós-graduando em Terapia de Família, e essa foi a consequência natural de tudo o que veio antes. Quando o foco deixa de ser apenas o paciente identificado e passa a incluir o sistema familiar inteiro, muda o que eu pergunto, muda quem eu convido para a sala e muda o que conta como melhora. Uma mãe exausta que finalmente dorme é desfecho clínico, mesmo quando o prontuário aberto é o do filho.
É por isso que, no meu consultório, cuidadores e familiares não são acompanhantes. São gente que também precisa ser cuidada, e que raramente pede por isso.
Ensinar é parte do ofício
Sou professor de Comunicação Clínica, Humanização e Profissionalismo e de Saúde Coletiva no curso de Medicina do IMEPAC-Araguari. Ensino, entre outras coisas, a fazer a pergunta que ninguém ensinou a mim na graduação, quem mais mora nessa história. Muitos deles chegam preparadíssimos para reconhecer uma arritmia e sem a menor ideia do que fazer diante de uma pessoa chorando. A boa notícia é que isso se aprende, e se aprende cedo.
Escrever é a outra metade do trabalho
Sou editor médico associado de Medicina de Família e Comunidade no Portal Afya, escrevo para a imprensa sobre saúde mental e família, idealizei e apresento o programa Hora da Saúde, na Rede Vida Educação, e escrevo a cada quinze dias a newsletter O fio do cuidado. Traduzir ciência para quem convive com o problema não é uma atividade paralela à clínica. É a mesma clínica, feita em escala.
Uma família que entende o que está acontecendo com ela toma decisões melhores, cobra melhor do sistema de saúde e culpa menos a si mesma. Uma parte do que eu vejo sofrer no consultório começou com uma informação errada que alguém repetiu com muita convicção.
A pesquisa que eu escolhi fazer
Quando pude escolher o que investigar, escolhi a saúde mental dos médicos e dos estudantes de Medicina. Nos últimos anos participei de estudos sobre qualidade de vida e sofrimento psíquico nessa população, publicados em periódicos como PLOS ONE e BMJ Open, incluindo um trabalho de 2026 sobre as disparidades de gênero na saúde mental e na qualidade de vida de médicas e médicos brasileiros.
A escolha não é distante da clínica, é o avesso dela. Um sistema que adoece quem cuida acaba entregando cuidado adoecido, e os números brasileiros que a imprensa tem publicado sobre ansiedade e depressão entre médicos vêm, em boa parte, dessa linha de pesquisa. Cuidar bem de alguém começa por cuidar de quem cuidará dessa pessoa.
Um sistema que adoece quem cuida acaba entregando cuidado adoecido.
Formação e trajetória
- Universidade Federal de UberlândiaGraduação em Medicina, concluída em 2017, e mestrado em Psicologia.
- Fundação Pio XIIResidência médica em Medicina de Família e Comunidade.
- Yale UniversityPesquisador visitante do Program for Recovery and Community Health, com formação em recovery, peer support e citizenship, o cuidado entendido como reconstrução de vida e pertencimento.
- Terapia de FamíliaPós-graduação em andamento, com foco no sistema familiar como unidade de cuidado.
- IMEPAC-AraguariProfessor de Comunicação Clínica, Humanização e Profissionalismo e de Saúde Coletiva no curso de Medicina.
- Portal AfyaEditor médico associado de Medicina de Família e Comunidade.
- Instituto Unimed UberlândiaMembro do conselho e membro fundador, dedicado à governança e ao impacto social na cidade.
Medicina de Família e Comunidade · CRM-MG 74.511 · RQE 69038 · ORCID · Currículo Lattes · ficha técnica completa
Onde eu atendo, e como
O consultório se chama Artem Curant e fica em Uberlândia, com atendimento também por videoconferência para todo o Brasil e para brasileiros que moram fora. Todos os atendimentos são particulares, e essa é uma decisão clínica antes de ser qualquer outra coisa, porque é ela que sustenta consultas longas o bastante para tudo o que descrevi aqui. Contei em detalhe como isso funciona, quais são as modalidades de consulta e onde consultar as regras de reembolso do seu plano em como funciona a consulta.
Se essa forma de ver o cuidado conversa com o que você procura para você ou para alguém da sua família, a porta está aberta.
Como funciona a consulta
As modalidades de atendimento, o que acontece em cada encontro e onde consultar as regras de reembolso do seu plano.
Entender a consulta →Referências
- STARFIELD, B.; SHI, L.; MACINKO, J. Contribution of primary care to health systems and health. The Milbank Quarterly, v. 83, n. 3, p. 457-502, 2005. DOI: 10.1111/j.1468-0009.2005.00409.x. Consultado via PubMed.
- PEREIRA GRAY, D. J. et al. Continuity of care with doctors, a matter of life and death? A systematic review of continuity of care and mortality. BMJ Open, v. 8, n. 6, e021161, 2018. DOI: 10.1136/bmjopen-2017-021161. Consultado via PubMed.
- DAVIDSON, L.; BELLAMY, C.; GUY, K.; MILLER, R. Peer support among persons with severe mental illnesses: a review of evidence and experience. World Psychiatry, v. 11, n. 2, p. 123-128, 2012. DOI: 10.1016/j.wpsyc.2012.05.009. Consultado via PubMed.
- ROWE, M. Citizenship and Mental Health. Oxford: Oxford University Press, 2015. Program for Recovery and Community Health, Yale University.
- SILVEIRA, N. Imagens do Inconsciente. Rio de Janeiro: Alhambra, 1981. Seção de Terapêutica Ocupacional do Centro Psiquiátrico Nacional, criada em 1946, e Museu de Imagens do Inconsciente, fundado em 1952.
- SILVEIRA, N. Gatos, a emoção de lidar. Rio de Janeiro: Léo Christiano Editorial, 1998.
- MBITI, J. S. African Religions and Philosophy. Londres: Heinemann, 1969.
- RAMOSE, M. B. African Philosophy Through Ubuntu. Harare: Mond Books, 1999.
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