MARCELO GOBBO JR.Artem Curant Medicina de Família e Saúde Mental ← Todos os textos

Saúde mental · 20 jul 2026

Burnout parental não é falta de amor

Existe um cansaço que não passa com uma noite bem dormida e que tem vergonha de dizer o próprio nome. A ciência deu nome a ele, e nomear, nesse caso, é o começo do cuidado.

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Ela chegou à consulta pelo filho, como quase sempre acontece. Trouxe a caderneta, os relatórios da escola e a lista de perguntas anotada no celular. Foi só no fim, com a mão já na bolsa, que a voz falhou, e o que saiu foi uma frase que escuto mais vezes do que se imagina, dita quase sem som, eu amo os meus filhos, doutor, mas não aguento mais ser mãe. Em seguida veio o pedido de desculpas, como se o cansaço fosse um crime.

A ciência levou esse cansaço a sério

O que essa mãe descreveu tem nome. Em 2018, Isabelle Roskam e Moïra Mikolajczak, pesquisadoras da Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, partiram dos depoimentos de centenas de pais exaustos para construir o instrumento que hoje mede o burnout parental em dezenas de países. O quadro que emergiu tem quatro faces, a exaustão no papel de pai ou mãe, o contraste doloroso entre o pai que se é hoje e o que se foi um dia, a sensação de saturação com a própria parentalidade e o distanciamento afetivo dos filhos. Não se trata de frescura nem de fraqueza de caráter, e sim de um esgotamento específico do papel de cuidar, que costuma alcançar justamente quem levou esse papel mais a sério.

Esse cansaço se mostra de quatro maneiras

A exaustão vem primeiro e é a parte mais fácil de reconhecer. É o pai ou a mãe que acorda já cansado diante de mais um dia de cuidado, atravessa as horas no limite da reserva e chega à noite com a sensação de não ter sobrado nada para dar. Não falo do cansaço comum de uma semana cheia, e sim de um esgotamento que se acumula por meses e já não responde a uma folga curta nem a um fim de semana bom.

O contraste talvez seja a dimensão mais dolorosa de escutar. A pessoa se lembra do pai ou da mãe que conseguia ser antes, presente, paciente, inventivo, e não se reconhece no cuidador irritadiço em que se transformou. Esse abismo entre o que se foi e o que se é pesou tanto nos depoimentos colhidos pelas pesquisadoras belgas que virou critério de medida do quadro, e no consultório ele costuma se apresentar vestido de vergonha.

Existe também a saturação, que os autores descrevem como estar farto do próprio papel. A pessoa segue amando os filhos e, ainda assim, não suporta mais a rotina de ser responsável por eles, sem revezamento, sem pausa e sem linha de chegada à vista. Dizer isso em voz alta soa proibido na nossa cultura, e é justamente por isso que quase ninguém diz antes de adoecer.

Por fim aparece o distanciamento afetivo, e ele costuma assustar quem o percebe em si. O cuidado prático continua acontecendo, o banho sai, a lancheira fecha, a lição é conferida, mas tudo passa a ser feito no automático, com menos conversa, menos brincadeira e menos presença. Entendo esse recuo como a economia desesperada de quem já não tem de onde tirar, e não como a prova de um amor que acabou. No consultório, vejo o quadro inteiro conviver com bom desempenho no trabalho e com uma vida social de aparência intacta, o que atrasa o pedido de ajuda.

Antes havia uma aldeia em volta de cada criança

Três anos depois, a mesma equipe coordenou um consórcio internacional que aplicou o instrumento em 17.409 pais e mães de 42 países, e o resultado desenhou um mapa que dá o que pensar. A prevalência do burnout parental varia dramaticamente de um país para outro, e o que melhor explica essa variação não é a renda nem o número de filhos, e sim o grau de individualismo de cada cultura. Onde criar filhos virou tarefa solitária de casais isolados, com pouca rede em volta e uma régua altíssima de desempenho, os pais adoecem mais. Na conclusão dos autores, o individualismo pesa mais no burnout parental do que as desigualdades econômicas entre os países ou qualquer outra característica individual da família.

O Brasil começou a medir o próprio cansaço. Uma pesquisa feita em 2024 por duas empresas brasileiras ligadas à maternidade ouviu duas mil mães e encontrou sinais de esgotamento emocional em nove de cada dez respondentes, com seis em cada dez figuras parentais apresentando sinais de burnout parental. É um levantamento de mercado, com as limitações de uma amostra que se autosseleciona, e ainda assim o tamanho do número conversa com o que vejo no consultório, onde a pergunta sobre como vai quem cuida quase nunca tem vez.

Falar disso importa porque o burnout parental não fica parado. Em 2019, Moïra Mikolajczak, ao lado de James Gross, de Stanford, e da própria Isabelle Roskam, acompanhou mais de dois mil pais em três ondas de pesquisa e mostrou que o esgotamento anda junto com a vontade recorrente de fugir da própria família e com o aumento da negligência e da violência contra os filhos, mesmo em casas cheias de amor, que jamais se imaginariam dentro dessa frase. Escrevo isso sem nenhuma intenção de assustar, e sim para tirar o tema do armário da vergonha, porque o pai esgotado que se cala tende a piorar sozinho, e o que consegue dizer em voz alta o que sente já começou a se proteger e a proteger as crianças.

No meu consultório, o cuidador também é paciente

No consultório, aprendi a perguntar pelo cuidador com a mesma seriedade com que pergunto pela criança. Nas famílias que acompanho, muitas delas famílias atípicas, o cansaço de quem cuida costuma ser o dado clínico mais escondido da sala, atrás dos laudos e da agenda de terapias. Quando o esgotamento aparece, o plano deixa de ser apenas o da criança e passa a incluir o adulto, com atenção ao sono, reconstrução de alguma rede de apoio, divisão real das tarefas e, quando é o caso, psicoterapia ou tratamento próprio, porque ninguém sustenta por muito tempo um cuidado que só sai de si.

Se este texto encontrou você no meio desse cansaço, o gesto que proponho nesta semana é pequeno e difícil. Escolha uma pessoa de confiança e conte, sem maquiagem, como tem sido cuidar por dentro. Não precisa ser o cônjuge nem precisa ser um médico, precisa ser alguém que escute sem oferecer receita pronta. O burnout parental cresce no silêncio, e a partilha é o primeiro lugar onde ele começa a perder tamanho. Nenhuma família precisa descobrir isso sozinha.

Perguntas frequentes

Burnout parental é o mesmo que depressão?

Os quadros podem se parecer e às vezes coexistem, mas o burnout parental é um esgotamento ligado especificamente ao papel de cuidar, com exaustão, distanciamento afetivo dos filhos e a sensação de não se reconhecer mais como pai ou mãe. A depressão costuma invadir todas as áreas da vida. Como a distinção muda o tratamento, a avaliação com um profissional é o caminho mais seguro.

Ter vontade de sumir faz de mim um pai ruim ou uma mãe ruim?

Não faz, e é importante dizer isso com todas as letras. A vontade recorrente de fugir aparece nos estudos como um dos sinais típicos do esgotamento parental, inclusive em pais dedicados e afetuosos. Ela funciona como um alarme do corpo pedindo redistribuição da carga, e falar sobre isso com alguém de confiança e com um profissional é o primeiro passo de proteção para o adulto e para as crianças.

O que ajuda a sair do burnout parental?

Na minha prática, o cuidado começa por nomear o problema sem vergonha, redistribuir tarefas de forma concreta, reconstruir alguma rede de apoio e proteger o sono de quem cuida. Em parte dos casos há indicação de psicoterapia e, quando existe depressão ou ansiedade associada, de tratamento médico. O plano é sempre construído caso a caso, junto com a família.

Referências

  1. ROSKAM, I.; BRIANDA, M.-E.; MIKOLAJCZAK, M. A step forward in the conceptualization and measurement of parental burnout: the Parental Burnout Assessment (PBA). Frontiers in Psychology, v. 9, 758, 2018. DOI: 10.3389/fpsyg.2018.00758. PMID: 29928239.
  2. ROSKAM, I. et al. Parental burnout around the globe: a 42-country study. Affective Science, v. 2, p. 58-79, 2021. DOI: 10.1007/s42761-020-00028-4.
  3. MIKOLAJCZAK, M.; GROSS, J. J.; ROSKAM, I. Parental burnout: what is it, and why does it matter? Clinical Psychological Science, 2019. DOI: 10.1177/2167702619858430.
  4. B2MAMY; KIDDLE PASS. Report Burnout Parental 2024: primeira pesquisa brasileira sobre burnout parental. São Paulo, 2024. Disponível em: movimentomulher360.com.br.
Dr. Marcelo Gobbo Jr.

Dr. Marcelo Gobbo Jr.
Médico de Família e Comunidade (CRM-MG 74.511 · RQE 69038), mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia, com estágio no Program for Recovery and Community Health, em Yale. Atende famílias atípicas e pessoas que convivem com o transtorno mental grave, no consultório e à distância.

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