Medicina de família · 17 ago 2026
Crenças de saúde, por que saber o que fazer não basta?
A pesquisa sobre crenças de saúde tem 70 anos e uma conclusão incômoda para quem trabalha informando. Reuni o que ela mostra sobre o que move alguém a cuidar de si, e sobre o limite do susto e da explicação.
“Eu sei que eu deveria.” É a frase que mais ouço no consultório, e ela vem de bocas muito diferentes. De um homem que carrega há três semanas na mochila a caixa fechada do remédio da pressão. De uma mulher que marcou e desmarcou a mamografia duas vezes. De um rapaz de 19 anos que sabe o nome do que sente, sabe onde procurar ajuda e continua adiando. Nenhum deles está desinformado. Todos sabem exatamente o que a medicina recomenda, e mesmo assim aquilo não sai do lugar.
Durante boa parte da minha formação eu tratei essa distância como falha de comunicação. Se a pessoa não fez, foi porque eu não expliquei direito. Passei anos explicando melhor, e melhorou pouco. O que mudou a minha consulta não foi aprender a explicar, foi descobrir que existe um campo inteiro de pesquisa dedicado a essa distância, e que ele nasceu de uma pergunta muito parecida com a minha.
A pesquisa começou tentando entender quem não fazia o raio X
Edward Green, Elaine Murphy e Kristina Gryboski contam, num capítulo de 2021 da Wiley Encyclopedia of Health Psychology, que o modelo apareceu nos anos 1950, entre cientistas do comportamento que trabalhavam no serviço público de saúde dos Estados Unidos. O problema deles era concreto. Havia rastreamento de tuberculose por raio X de tórax disponível e subutilizado, porque muita gente que estava doente não reconhecia os próprios sintomas e não procurava atendimento pelo que considerava apenas uma tosse.
Irwin Rosenstock, na Universidade de Michigan, revisou em 1974 os primeiros estudos desse grupo. O mais nítido é o de Godfrey Hochbaum, que a partir de 1952 entrevistou mais de 1.200 adultos em três cidades para entender o que decidia alguém a fazer o exame. Entre as pessoas que acreditavam em duas coisas ao mesmo tempo, que podiam ter tuberculose sem sentir nada e que descobrir cedo traria algum benefício, 82% tinham feito ao menos um raio X voluntário no período estudado. Entre as que não acreditavam em nenhuma das duas, 21%.
O que a pessoa se pergunta antes de decidir
O Modelo de Crenças em Saúde organiza essa decisão em perguntas que a pessoa se faz sem perceber que está fazendo. Isso pode acontecer comigo? Se acontecer, o quanto atrapalha a minha vida? O que estão me propondo resolve mesmo? E o que aquilo vai me custar, em dinheiro, em tempo, em deslocamento, em vergonha, em medo do que pode aparecer no exame? Com o tempo o modelo ganhou mais duas peças. Uma é o gatilho, o que faz a decisão sair do papel num dia específico, uma campanha na televisão, um resultado alterado, a doença de alguém próximo. A outra é a confiança da pessoa em conseguir fazer aquilo, a autoeficácia, incorporada ao modelo em 1988.
Nenhuma dessas perguntas é sobre informação. Todas são sobre crença, e é por isso que a explicação sozinha não costuma bastar.
Quando foram medir, duas das quatro crenças não se sustentaram
Christopher Carpenter, na Western Illinois University, reuniu em 2010 os estudos que mediram essas crenças primeiro e o comportamento depois, e não os dois na mesma entrevista, justamente para não confundir a crença com a justificativa que a gente dá depois de já ter agido. Sobraram 18 estudos, com 2.702 pessoas ao todo. O resultado desmonta a parte mais usada do modelo. A percepção de gravidade teve correlação de 0,15 com o comportamento. A percepção de estar sob risco teve 0,05, perto de zero. As duas que sustentaram o modelo foram a percepção de benefício, com 0,27, e a percepção de barreira, com 0,30.
Carpenter conclui que, pela fraqueza de dois dos quatro preditores, não se recomenda continuar usando a versão do modelo em que as quatro crenças agem direto sobre o comportamento. Traduzido para a consulta, o que prevê alguém cuidar de si não é o quanto essa pessoa se sente ameaçada. É o quanto ela acredita que a conduta proposta funciona, e o quanto sente que consegue pagar o preço dela.
Michael Cummings, Alan Jette e o próprio Rosenstock já tinham encontrado uma pista disso em 1978, ao testar como medir cada uma dessas crenças em 85 estudantes de pós-graduação em saúde pública. Benefício e barreira apareceram ligados por uma correlação negativa de 0,655, forte o bastante para os autores levantarem a hipótese de que não são duas crenças separadas, e sim as duas pontas de uma mesma régua. Quanto mais alguém enxerga que aquilo vale a pena, menos alto parece o preço.
As pessoas mais assustadas foram as que não fizeram o exame
Rosenstock não escondeu esse limite. No mesmo texto de 1974 ele registra que Hochbaum identificou 16 pessoas intensamente amedrontadas pela tuberculose, e que nenhuma delas tinha feito um único raio X voluntário nos oito anos anteriores. Num programa de rastreamento genético para a doença de Tay-Sachs iniciado em 1971 na região de Baltimore e Washington, ele descreveu o mesmo padrão e escreveu que ali a gravidade percebida tinha chegado a um nível tão alto que se tornara disfuncional.
A conclusão dele é a que eu levo para a consulta. O comportamento recomendado aparece num equilíbrio ótimo entre motivo, vulnerabilidade, gravidade e a relação entre benefício e custo, e quando esse conjunto fica muito baixo ou muito alto não é de esperar que a pessoa faça o que se recomenda. Medo de menos não move, e medo demais paralisa.
No diabetes, pesa mais acreditar que o tratamento funciona
John Harvey e Vanessa Lawson, do centro de endocrinologia e diabetes da Cardiff University, no País de Gales, revisaram em 2009 vinte anos dessa literatura aplicada ao autocuidado no diabetes. Eles abrem lembrando uma metanálise de 30 estudos de educação de pacientes em doença crônica, na qual melhorar o conhecimento sozinho raramente foi suficiente para melhorar a adesão ao tratamento. Algumas pessoas com bom nível de conhecimento aderem mal, e a revisão diz isso com todas as letras.
Os números do modelo clássico ali também são modestos. A revisão registra que, na metanálise de Harrison e colegas, as quatro dimensões principais explicaram menos de 10% da variação do comportamento medido. O que aparece de forma consistente é outra crença. A percepção de que o tratamento é eficaz é a que mais se relaciona com os desfechos, inclusive com a hemoglobina glicada.
E há um achado que anda no sentido contrário do que a intuição sugere. A percepção de ameaça alta, de que a doença é grave e de que as complicações vão chegar, apareceu associada a faltar na consulta de diabetes, e a cuidar pior de si entre adolescentes. Harvey e Lawson resumem que acreditar que o diabetes é sério funciona como motivador quando a pessoa também acredita que o tratamento funciona, e não necessariamente quando o que domina é a administração da emoção, às vezes pela evitação ou pela negação.
Crença muda, e mais rápido do que eu imaginava
Rita Orji, Julita Vassileva e Regan Mandryk, na Universidade de Saskatchewan, no Canadá, acompanharam em 2012 o comportamento alimentar de 576 pessoas para testar até onde o modelo original chega. Em média, os determinantes clássicos explicam algo em torno de 20% da variação do comportamento saudável, o que deixa 80% sem explicação. Quando o grupo acrescentou crenças que o modelo não olhava, entre elas o quanto a pessoa se importa com aquilo e o quanto ela considera as consequências futuras, a capacidade de previsão subiu de 40% para 71%. Em todos os modelos que testaram, o determinante mais forte foi a autoeficácia.
Também há sinal de que essas crenças respondem a pouca coisa bem feita. Uma equipe da STIKes Mitra Husada Medan levou em 2025 quatro encontros de 60 minutos, um por semana, a 50 adolescentes de 12 a 16 anos de uma vila rural do norte de Sumatra, na Indonésia, trabalhando exatamente essas perguntas aplicadas à saúde mental. O grupo que participou terminou com escore médio de 87,6 em acesso ao cuidado, contra 76,5 no grupo que não participou, com tamanho de efeito de 1,06. A proporção de adolescentes com ansiedade baixa subiu de 72% para 92%, e os 3 que tinham começado na faixa de ansiedade alta terminaram fora dela.
É um estudo pequeno, de uma comunidade só, com medidas de autorrelato e sem seguimento longo, e os próprios autores dizem isso antes de qualquer leitor apontar. Ele não prova que quatro conversas resolvem. Mostra a direção, que é a de trabalhar a crença e não só o folheto.
Hoje eu pergunto antes de explicar
Deixei de abrir a conversa sobre um tratamento pela explicação do tratamento. Começo perguntando o que a pessoa acha que aquilo vai fazer por ela, e escuto até o fim, inclusive quando a resposta é que não vai fazer nada. Depois pergunto o que atrapalha, e insisto um pouco, porque a primeira resposta costuma ser educada e a segunda costuma ser a verdadeira. Custa dinheiro, dá sono, engorda, o posto abre no horário em que ela trabalha, o marido acha exagero, ela tem medo do que o exame vai mostrar. Barreira nomeada vira problema que dois podem resolver, e barreira não nomeada continua decidindo sozinha.
Também parei de apostar no susto. Assustar mais é a ferramenta mais fácil que um médico tem à mão e uma das que menos entrega, e a pesquisa vem dizendo isso desde os anos 1970. O que sobrou de mais útil no meu consultório foi bem menos dramático, que é mostrar, com clareza e sem promessa, o que aquele tratamento costuma fazer, e ajudar a pessoa a acreditar que ela consegue.
Se você está adiando alguma coisa que sabe que precisa fazer, não tente resolver o adiamento inteiro hoje. Responda a duas perguntas em voz alta, sozinho, com honestidade. O que eu acho que isso vai me trazer? E o que isso me custa? É bem provável que apareça um motivo concreto, e motivo concreto tem endereço. Leve esse motivo para a próxima consulta, porque ele é o fio por onde o nó começa a afrouxar. Nada disso substitui a avaliação individual de quem acompanha você.
Perguntas frequentes
Eu sei o que preciso fazer pela minha saúde, mas não faço. Por quê?
Porque saber e acreditar são coisas diferentes. A metanálise de Christopher Carpenter, publicada em 2010 com 18 estudos e 2.702 pessoas, mostrou que o que mais previu o comportamento não foi o medo da doença, e sim a percepção de que a conduta funciona e a percepção de quanto ela custa. Antes de cobrar de si mais força de vontade, nomeie o que você acha que aquilo resolve e o que ele cobra de você. Esse par costuma explicar o adiamento melhor do que a preguiça.
Meu marido não toma o remédio da pressão. Como eu faço ele tomar?
Comece perguntando o que ele acha que o remédio faz, em vez de repetir o que ele já ouviu. Na mesma metanálise de 2010, a percepção de barreira foi o preditor mais forte do comportamento, com correlação de 0,30. Efeito colateral, preço, esquecimento e a sensação de que a pressão alta não incomoda são barreiras reais, e todas elas são negociáveis com o médico. Insistir no risco costuma render discussão em casa, e nomear a barreira costuma render uma consulta.
Dá para fazer alguém se cuidar assustando com o que pode acontecer?
Não, e o susto grande costuma travar. Irwin Rosenstock registrou em 1974 que, entre as pessoas intensamente amedrontadas pela tuberculose no estudo de Hochbaum, nenhuma das 16 tinha feito um único raio X voluntário nos oito anos anteriores. Ele concluiu que existe um equilíbrio, e que tanto o medo de menos quanto o medo demais afastam a pessoa da conduta recomendada. Mostrar o benefício concreto costuma render mais do que aumentar a ameaça.
O médico explicou tudo direitinho e eu não mudei nada. É preguiça minha?
Não é preguiça, é o limite da informação sozinha. A revisão de John Harvey e Vanessa Lawson, de 2009, lembra uma metanálise de 30 estudos de educação de pacientes em doença crônica na qual melhorar o conhecimento raramente bastou para melhorar a adesão ao tratamento. O que mais se associou aos desfechos no diabetes foi a crença de que o tratamento é eficaz. Se você não acredita nisso, diga ao seu médico, porque essa frase muda a consulta.
Dá para mudar uma crença sobre saúde em pouco tempo?
Em alguns casos, sim. Num estudo de 2025 com 50 adolescentes de 12 a 16 anos numa vila rural da Indonésia, quatro encontros de 60 minutos deixaram o grupo participante com escore médio de 87,6 em acesso ao cuidado em saúde mental, contra 76,5 no grupo sem intervenção, com tamanho de efeito de 1,06. É um estudo pequeno, de uma comunidade só e com medidas de autorrelato. Ainda assim, indica que crença responde a conversa estruturada.
Referências
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