Saúde mental · 2 set 2026
Meu filho está apostando, como eu ajudo?
Naquela consulta eu perguntei sobre álcool, sobre maconha e sobre sono, e não perguntei sobre aposta. O rapaz tinha 19 anos. A dívida apareceu quatro meses depois, pela boca da mãe e não pela dele. Fui atrás do que a pesquisa dizia e encontrei uma revisão que só aceita estudos que acompanham as mesmas pessoas por anos, com 13 fatores de risco individuais medidos e apenas dois fatores de proteção na relação com os outros, sendo um deles a supervisão dos pais.
A faculdade me ensinou a perguntar sobre tudo o que se bebe, se fuma, se cheira e se injeta. Eu tinha roteiro pronto para substância e nenhum para comportamento. Em seis anos de faculdade e nos anos de residência, ninguém me disse que eu precisava perguntar quanto aquele rapaz tinha apostado no fim de semana. Ele não tinha mentido para mim, eu é que não tinha perguntado.
Fui ver o tamanho da coisa. A revisão mais ampla disponível hoje, publicada em 2024 na Lancet Public Health por uma equipe coordenada por Lucy Tran, na Universidade de Nova Gales do Sul, reuniu 380 amostras representativas de 68 países e territórios. Entre os adultos, 46,2% tinham apostado nos 12 meses anteriores. Entre os adolescentes, 17,9%. O jogo problemático, medido só entre adultos, ficou em 1,41% no conjunto e em 15,8% de quem jogava em cassino ou caça-níquel on-line.
Os próprios autores anotam que quase não existe dado sobre jogo de risco e jogo problemático nas amostras de adolescentes. Sabemos quantos jovens apostam e não sabemos quantos deles já estão em apuros. Prefiro dizer isso logo, porque a família que chega com essa preocupação merece saber onde a ciência para.
Uma casa de apostas on-line, dessas que qualquer um encontra no celular e que o brasileiro chama de bets, trabalha com um número que a família não tem, que é a chance real de cada palpite dar certo. A casa de apostas sabe e a família não sabe, e é sobre essa diferença que o negócio funciona.
Treze coisas que aumentam o risco, duas que seguram
Nicki Dowling e colegas, na Universidade Deakin, na Austrália, reuniram 15 estudos publicados em 23 artigos, todos com acompanhamento das mesmas pessoas ao longo dos anos, o que os torna mais confiáveis para falar de causa do que uma fotografia de um instante.
Do lado do risco a revisão mediu 13 fatores individuais, entre eles a impulsividade, a frequência de uso de álcool, o comportamento antissocial, a depressão, o uso de maconha e a busca de sensação. No campo da comunidade sobrou o desempenho escolar ruim. Na relação com os outros sobraram dois fatores de proteção, e um deles é a supervisão dos pais. Os tamanhos de efeito vão de pequenos a médios.
Os autores fecham dizendo que a investigação de fatores de proteção é insuficiente para orientar iniciativas de prevenção. É uma frase educada para dizer que a literatura mediu com esmero tudo o que dá errado e quase não olhou o que segura. A lista de que uma mãe precisa é justamente a curta.
O que a casa ensina sem falar
Em Florença, Maria Anna Donati ouviu 680 duplas formadas por um estudante de ensino médio e um dos pais, e mediu o quanto cada lado apostava. Quanto mais os pais apostavam, mais os filhos apostavam, e o quanto o filho apostava se ligava à gravidade do problema dele. Nos Estados Unidos, um estudo com 1.517 estudantes de ensino médio de Connecticut, conduzido por Zu Wei Zhai e colegas, viu que os adolescentes que compravam bilhete de loteria relatavam atitudes mais permissivas em relação ao jogo e maior aprovação dos pais.
Do outro lado da conta, uma estimativa alemã publicada em 2025 calculou que cerca de 1 em cada 25 crianças do país tem um pai ou uma mãe que vive com transtorno do jogo. O bolão do trabalho e a raspadinha de domingo também ensinam, e ninguém precisa comentar nada para isso acontecer.
Onde o que se sente vira número
Sobre o impulso, existe um retrato recente. Uma equipe coordenada por Samuel Chamberlain, em Southampton, avaliou 543 jovens de 18 a 29 anos que tinham apostado pelo menos cinco vezes no ano anterior, aplicou entrevistas diagnósticas e mediu a dificuldade de regular emoções em cada quadro. A maior dificuldade apareceu em quem teve rastreio positivo para TDAH, e depois em quem teve rastreio positivo para transtorno explosivo intermitente, fobia social e transtorno de ansiedade generalizada.
É um retrato de um instante, feito em amostra de comunidade e não em serviço de tratamento, e não diz o que veio antes nem o que causou o quê. Ainda assim, desloca a conversa de um jeito que me serve. O que aparece nesses jovens não é falta de vergonha na cara, é dificuldade de pôr o que se sente num tamanho que caiba. A aposta oferece exatamente isso, um lugar onde o que se sente vira número, e número dá a impressão de que aquilo está sob controle.
Tratar move três coisas, e a maior é a confiança
Rory Pfund e colegas, na Universidade de Memphis, publicaram em 2023 uma revisão de revisões sobre terapia cognitivo-comportamental para dano relacionado ao jogo, num total de 56 estudos e 5.389 participantes. Considerando só as meta-análises de qualidade moderada a alta, a terapia reduziu a gravidade do transtorno com efeito grande, a frequência de jogo com efeito médio e a intensidade com efeito pequeno. Entre 65% e 82% de quem fez terapia melhorou mais do que quem ficou sem tratamento ou com um tratamento mínimo.
Faltava saber por onde a melhora passa, e uma análise de 2024, com 15 ensaios randomizados e 1.536 participantes, foi atrás disso. Mudaram as crenças da pessoa sobre o jogo e o repertório de enfrentamento, e o maior efeito dos três foi na confiança dela de que conseguiria. Isso descreve bem o que eu vejo na sala, onde a virada não vem de mais informação.
As duas revisões olham para adultos a partir dos 18 anos. Para adolescente não existe esse acúmulo de ensaios, e quem promete a um pai que o tratamento do filho de 15 anos tem o mesmo lastro está vendendo alguma coisa.
A noite em que a dívida aparece
O que eu vejo funcionar melhor é separar duas conversas que chegam grudadas. Uma é sobre dinheiro, com valor, prazo e quem paga o quê. A outra é sobre cuidado. Quando as duas acontecem na mesma noite e no mesmo tom, a segunda perde, e é da segunda que depende o que vem depois.
Quitar a dívida em silêncio, sem que o resto da família saiba e sem nenhum pedido de ajuda profissional, alivia a semana e ensina que existe rede embaixo. Pagar pode ser a decisão certa, e ela rende mais quando vem acompanhada de uma consulta marcada.
E existe a pergunta chata, feita com número e sem tom de julgamento. Pergunte quanto ele apostou neste fim de semana, quanto ainda está em aberto e com quem ele deve. É mais fácil de responder do que perguntar se o filho “está viciado”, porque a segunda pergunta pede uma confissão e a primeira pede uma conta.
A hora em que ele foi dormir na terça
Volto àquela diferença do começo. A casa de apostas tem o número da chance e a família não tem. Só que a família tem um número que a casa nunca vai ter. A mãe sabe a hora em que o filho foi dormir na terça, a semana em que ele parou de sair com os amigos, o nome do amigo que sumiu, e sabe quando o celular passou a ficar virado para baixo na mesa. Nenhum algoritmo compra esse dado. É ele que a revisão chama de supervisão dos pais.
Supervisão, aqui, não quer dizer vigilância. Revistar celular rende uma briga e um aplicativo novo instalado no dia seguinte. O que a pesquisa mede é mais chato do que isso, porque é saber onde o filho está, com quem, com quanto dinheiro e a que horas volta, e ter perguntado de um jeito que ele responda sem se armar.
Sobre o rapaz de 19 anos, o que eu mudei foi o meu roteiro. Hoje a pergunta sobre aposta entra junto com a de álcool e a de sono, em toda consulta de adolescente e de adulto jovem, feita com a mesma cara de quem pergunta a altura. Foi conserto de roteiro. E se alguém que se formou comigo também não aprendeu a perguntar, o buraco está na grade que a gente cursou.
Se você está com essa preocupação atravessada, o gesto que cabe hoje ou amanhã é uma pergunta só. Faça a pergunta chata com número, uma vez, sem cerco e sem plateia, e depois fique quieto o tempo que a resposta precisar. Se ela vier, você tem um começo. Se não vier, o silêncio também é informação, e não é motivo para gritar. Esse primeiro número é um fio, e não um veredito. Leve o que aparecer para uma avaliação individual, que é onde essa conversa rende de verdade.
Perguntas frequentes
Como sei se meu filho está apostando?
Repare no que muda de rotina antes de procurar prova. Sono virado, dinheiro que some sem explicação, pedidos de empréstimo pequenos e repetidos, o celular virado para baixo na mesa, o abandono de programas com amigos e a irritação quando alguém pergunta sobre dinheiro. Nenhum desses sinais isolado significa transtorno do jogo, e a soma deles em poucas semanas é motivo suficiente para perguntar direto e para marcar uma consulta.
Meu filho fez dívida com apostas, eu devo pagar?
Não existe resposta única, e existe um jeito de errar menos. Separe a conversa sobre dinheiro da conversa sobre cuidado, porque, quando as duas acontecem na mesma noite, a segunda se perde. Se decidir ajudar com a dívida, não faça isso em silêncio nem sem contrapartida, e combine junto uma consulta marcada. Quitar a dívida escondido do resto da família alivia a semana e ensina que existe rede embaixo.
O que eu falo com meu filho sobre apostas?
Pergunte com número em vez de pedir uma confissão. Pergunte quanto ele apostou neste fim de semana, quanto ainda está em aberto e com quem ele deve. Perguntar se ele está viciado convida à negação, porque exige que ele aceite um rótulo antes de dizer qualquer coisa. A pergunta com número é mais fácil de responder e já entrega a informação de que você precisa.
Como sei se virou transtorno do jogo?
O que separa o passatempo do transtorno não é o valor apostado, é a perda de controle sobre o comportamento e o prejuízo que esse comportamento causa na vida. Apostar mais do que planejou, tentar parar e não conseguir, apostar para recuperar o que perdeu, mentir sobre o quanto joga e ver escola, trabalho ou relações sendo afetadas são os pontos que fazem um médico ou um psicólogo pensar em diagnóstico. Esse julgamento é clínico e não se fecha por questionário na internet.
O meu jeito de apostar influencia o meu filho?
A pesquisa mostra associação, e ela é consistente. Num estudo italiano com 680 duplas de pai ou mãe e filho adolescente, quanto mais os pais apostavam, mais os filhos apostavam. Num estudo norte-americano com 1.517 estudantes, os adolescentes que compravam bilhete de loteria relatavam maior aprovação dos pais em relação ao jogo. Os dois desenhos são transversais e não provam causa, e o bolão do trabalho e a raspadinha de domingo ensinam alguma coisa mesmo quando ninguém comenta.
Dá para tratar o transtorno do jogo?
Dá, e a terapia cognitivo-comportamental é o tratamento com mais evidência acumulada. Numa revisão que juntou as meta-análises da área, com 56 estudos e 5.389 participantes, a terapia reduziu a gravidade do transtorno com efeito grande, e entre 65% e 82% de quem a recebeu melhorou mais do que quem ficou sem tratamento. Vale saber que essas revisões olham para adultos a partir dos 18 anos, e que para adolescente esse acúmulo de ensaios ainda não existe.
Referências
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