Saúde mental · 10 ago 2026
Transtorno alimentar na adolescência, o que quem cuida pode fazer?
A pergunta que quem cuida faz primeiro costuma ser sobre culpa, e a resposta da ciência é clara. Reuni o que a pesquisa mostra sobre o papel da casa no tratamento, sobre quem adoece e sobre o que dizer à mesa.
O jantar daquela casa passou a durar uma hora e quarenta minutos. Começava às sete, com todo mundo sentado, e terminava com o prato quase do mesmo tamanho de quando foi servido. No meio havia um garfo separando o arroz do feijão, um copo de água bebido devagar demais, uma ida ao banheiro logo depois e a televisão num volume alto o bastante para ninguém precisar dizer nada. Ninguém naquela mesa falava de comida, e ainda assim a comida era o único assunto.
Quem me descreveu a cena não foi a pessoa de quinze anos sentada no meio dela. Foi quem cuida, que marcou a consulta para falar exatamente disso, adiantou o motivo por telefone e chegou com a pergunta já escrita no bloco de notas do celular. A pergunta não era sobre exame nem sobre encaminhamento, e também não era sobre o que fazer no jantar seguinte. Era se aquilo tinha começado por causa de alguma coisa que a família fez.
Eu respondo a essa pergunta do mesmo jeito há anos, e a resposta não é gentileza minha. Em 2015 a Academy for Eating Disorders reuniu organizações internacionais de pacientes, de familiares e de defesa de direitos para escrever um documento curto com nove afirmações sobre transtornos alimentares, hoje traduzido para mais de 30 idiomas. A segunda delas diz que as famílias não são culpadas e podem ser as melhores aliadas do paciente e de quem o trata. Em 2017, uma equipe coordenada por Katherine Schaumberg, na Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, publicou a revisão que examina a evidência por trás de cada uma das nove, e escreve que atribuir o surgimento de um transtorno alimentar a características dos pais ou à dinâmica familiar é um modelo histórico e datado de psicopatologia.
Não é culpa de quem cuida, e mesmo assim é em casa que muita coisa acontece
Tirar a culpa de cima da família não é tirar a família de cena, é quase o contrário. A mesma afirmação que absolve diz, na segunda metade, que as famílias podem ser as melhores aliadas do tratamento, e o tratamento com mais evidência na adolescência é justamente aquele que conta com a casa.
Em 2010, James Lock, em Stanford, e Daniel Le Grange, na Universidade de Chicago, publicaram o ensaio clínico que organizou o que hoje se recomenda para a anorexia nervosa na adolescência. Sortearam 121 adolescentes de 12 a 18 anos para dois tratamentos ambulatoriais com a mesma carga, 24 horas de atendimento ao longo de um ano. Um deles é uma terapia individual centrada na pessoa adolescente. O outro, o tratamento baseado na família, começa por um gesto que ainda soa estranho para muita gente, que é dizer às pessoas que cuidam que elas não causaram aquilo e devolver a elas, por um tempo, a responsabilidade pelas refeições.
Ao fim do ano de tratamento, os dois grupos estavam parecidos. A diferença apareceu depois. No seguimento de doze meses, 49% de quem fez o tratamento baseado na família estava em remissão completa, contra 23% de quem fez a terapia individual. Entre quem já estava em remissão completa no fim do tratamento, a recaída no ano seguinte foi de 10% no primeiro grupo e de 40% no segundo. Durante o tratamento, 15% precisaram de internação no grupo da família, contra 37% no grupo da terapia individual.
Assumir a refeição não é ganhar uma queda de braço
Quando o protocolo diz que quem cuida assume a refeição, isso não quer dizer forçar ninguém a comer. Quer dizer decidir o que vai ao prato e ficar junto, tirando por um período uma decisão que virou insuportável dos ombros de quem está adoecendo. A descrição da primeira fase do tratamento é literal nesse ponto, e diz que ela é caracterizada por tentativas de absolver os pais da responsabilidade de ter causado o transtorno e por elogiar os aspectos positivos do que eles fazem como pais.
A segunda fase faz o caminho de volta, ajudando quem cuida a devolver o controle da alimentação e do peso à pessoa adolescente de forma apropriada à idade. Não é para durar a adolescência inteira, e é essa devolução que separa cuidado de vigilância.
Seis anos depois, Daniel Le Grange e Elizabeth Hughes, na Universidade de Melbourne, sortearam 107 adolescentes entre esse mesmo tratamento, com a família na sala, e um formato em que o terapeuta atende só quem cuida enquanto uma enfermeira acompanha a pessoa adolescente. Ao fim do tratamento, a remissão foi de 43% no formato que atende só quem cuida e de 22% no formato com a família na sala, e essa vantagem deixou de ser estatisticamente significativa nos seguimentos de seis e de doze meses. Não é um resultado que aposente o primeiro formato, é um resultado que alivia quem não consegue levar a família inteira, toda semana, para dentro de um consultório.
Não dá para saber olhando, e não acontece só com meninas
A primeira das nove afirmações é que muitas pessoas com transtorno alimentar parecem saudáveis e ainda assim podem estar gravemente adoecidas, e que essa aparência, somada à dificuldade de reconhecer a gravidade, atrasa a percepção de amigos, de familiares, de profissionais e da própria pessoa. O peso não funciona como termômetro, e alguém pode estar em qualquer faixa da curva e ainda assim viver um quadro grave.
A quinta afirmação é a que mais muda a conversa dentro de casa, porque diz que os transtornos alimentares afetam pessoas de todos os gêneros, idades, raças, etnias, formatos e pesos corporais, orientações sexuais e condições socioeconômicas. A revisão registra que homens têm menos chance de procurar tratamento, menos chance de receber o diagnóstico mesmo apresentando sintomas idênticos aos de mulheres, e menos chance de acessar tratamento mesmo com gravidade clínica semelhante. Registra também que a própria classificação dos transtornos alimentares evoluiu a partir do perfil de sintomas de mulheres, e que faltam dados normativos para homens, o que ajuda a entender por que o quadro passa batido em quem não se parece com o retrato que todo mundo tem na cabeça.
Uma revisão conduzida por Jason Nagata, na Universidade da Califórnia em São Francisco, com colegas de Toronto e de Harvard, reuniu em 2020 o que se sabe sobre minorias sexuais e de gênero. Nos Estados Unidos, a prevalência ao longo da vida de diagnóstico de transtorno alimentar informado por profissional de saúde foi de 10,5% entre homens trans e de 8,1% entre mulheres trans. Os autores ligam parte disso ao estresse de minoria e à discriminação, e apontam um problema prático que aparece na consulta, que é o uso de curvas de crescimento separadas por sexo para acompanhar adolescentes trans.
A conversa que protege é sobre comida, não sobre corpo
Em 2013, Jerica Berge e Dianne Neumark-Sztainer, na Universidade de Minnesota, cruzaram dois estudos populacionais de Minneapolis, com 2.793 adolescentes de idade média de 14,4 anos e 3.709 mães, pais e responsáveis. Separaram as conversas de casa em dois tipos, as que falavam de alimentação saudável sem mencionar peso e as que falavam de peso, de tamanho ou da necessidade de emagrecer. Entre adolescentes com peso dentro da faixa esperada, quando a mãe conversava sobre alimentação, 23% faziam dieta, contra 35% quando a conversa era sobre peso. Comportamentos não saudáveis de controle de peso apareceram em 30% contra 39%, e as formas extremas desses comportamentos, em 2% contra 6%. Entre adolescentes com peso acima do percentil 85 da curva, a distância aumentou, com 40% em dieta quando a conversa era sobre alimentação e 64% quando era sobre peso.
O estudo é transversal, quer dizer que mediu a conversa e o comportamento no mesmo momento, e os próprios autores lembram que pode ser o comportamento alimentar da pessoa adolescente que provoca a conversa sobre peso, e não o contrário. Ainda assim, a direção do achado se repete na amostra inteira e vale igualmente para mães e para pais, porque a conversa sobre alimentação apareceu ligada a menos comportamento de risco, e a conversa sobre peso, a mais.
O que trocar na frase antes de trocar o cardápio
Comentário sobre corpo, mesmo elogioso, mesmo quando é sobre o seu próprio corpo, dito na frente de quem escuta, é conversa sobre peso. Vale para o “você está ótima”, para o “eu preciso perder uns quilos” e para a piada sobre o corpo de alguém na televisão.
No lugar disso sobra muita coisa para dizer. Dá para falar do gosto da comida, da fome que apareceu depois do treino, do prato que ficou bom, do que vai ter no jantar de amanhã, de quem cozinhou. Nenhuma dessas frases exige que alguém à mesa avalie o próprio corpo para poder responder.
Quem cuida também precisa de cuidado
Acompanhar alguém que vive com um transtorno alimentar cansa de um jeito próprio, porque o conflito volta três vezes por dia e gira em torno de algo que não dá para suspender. Um estudo piloto conduzido por Yolanda Quiles Marcos, na Universidad Miguel Hernández, na Espanha, ao lado de Janet Treasure, do King's College de Londres, sorteou 64 pessoas que cuidam para dois formatos de oficina, um de treinamento em habilidades de cuidado colaborativo e outro de psicoeducação. Os dois melhoraram o bem-estar de quem cuida. No grupo do treinamento em habilidades, os níveis de ansiedade, de depressão e de sofrimento psíquico das pessoas em tratamento também caíram. É um estudo pequeno, com 37 pacientes avaliados, e sozinho não sustenta conclusão firme, mas aponta para o que a prática mostra todo dia, que é a impossibilidade de sustentar esse cuidado sem ser cuidado.
O tempo entre perceber e procurar ajuda é o que mais pesa
A nona afirmação diz que a recuperação completa é possível e que a detecção e a intervenção precoces são importantes. A revisão registra que, dez anos depois do início do quadro, 70% das pessoas estão recuperadas, e que, na anorexia nervosa, a probabilidade de recuperação diminui em função do tempo de duração, independentemente do tratamento. A sexta afirmação lembra que os transtornos alimentares trazem risco aumentado de complicações clínicas e de suicídio, e é por isso que a avaliação física não fica na fila esperando a psicoterapia começar. No próprio ensaio de 2010, os critérios que indicavam internação para estabilização eram bem concretos, com temperatura abaixo de 36,3 graus, frequência cardíaca abaixo de 50 batimentos por minuto, alteração do intervalo QT no eletrocardiograma e queda de pressão ao levantar. Nada disso se enxerga olhando para o prato.
Se você chegou até aqui procurando o que fazer hoje, o gesto cabe na próxima refeição e não depende de nenhum diagnóstico já estar dado. Sente à mesa e não comente nada sobre corpo, nem o seu, nem o de ninguém, nem o de quem apareceu na tela. Fale da comida, do dia, do que vai acontecer amanhã. E em algum momento, sem plateia, diga em voz alta o que talvez você só tenha pensado até agora, que aquilo não é culpa de ninguém daquela casa e que vocês vão procurar ajuda juntos. Novelo embolado não desmancha na força, desmancha quando alguém acha uma ponta e puxa devagar. Marcar a avaliação é a primeira ponta, e nada do que está escrito aqui substitui a avaliação individual de quem acompanha vocês.
Perguntas frequentes
Minha filha demora quase uma hora para comer e some depois. É normal?
Não é o padrão esperado, e merece avaliação. Refeição que se estende, comida cortada em pedaços muito pequenos, idas ao banheiro logo depois de comer e recusa de comer junto costumam aparecer antes de qualquer mudança visível no corpo. A aparência não serve de guia, porque muitas pessoas com transtorno alimentar parecem saudáveis e ainda assim podem estar gravemente adoecidas. Procure uma avaliação clínica em vez de esperar para ver.
É culpa minha que meu filho desenvolveu um transtorno alimentar?
Não. A segunda das nove afirmações reunidas pela Academy for Eating Disorders diz que as famílias não são culpadas e podem ser as melhores aliadas do paciente e de quem o trata. A revisão científica desse documento conclui que atribuir o transtorno a características dos pais ou à dinâmica familiar é um modelo histórico e datado de psicopatologia. O que a casa faz importa muito no tratamento, e isso é diferente de ter causado o problema.
Meu filho é menino, ele também pode ter transtorno alimentar?
Pode, e o risco maior é a demora até alguém pensar nisso. A revisão das nove afirmações registra que homens têm menos chance de procurar tratamento, menos chance de receber o diagnóstico mesmo apresentando sintomas idênticos aos de mulheres, e menos chance de acessar tratamento mesmo com gravidade clínica semelhante. A própria classificação dos transtornos alimentares evoluiu a partir do perfil de sintomas de mulheres. Se os sinais estão lá, leve a sério do mesmo jeito.
Devo obrigar meu filho adolescente a comer na marra?
Obrigar na marra não é o caminho, e assumir a refeição é outra coisa. No tratamento baseado na família, quem cuida decide o que vai ao prato e acompanha a refeição por um período, tirando dos ombros de quem está adoecendo uma decisão que virou insuportável. A segunda fase do protocolo devolve esse controle à pessoa adolescente de forma apropriada à idade. Isso acontece dentro de um acompanhamento com equipe, e não como regra inventada sozinha em casa.
Quando devo procurar ajuda com urgência por causa disso?
Procure imediatamente diante de desmaio, tontura ao levantar, batimento cardíaco muito lento, confusão ou qualquer menção a se machucar. No ensaio clínico de 2010 sobre o tratamento da anorexia nervosa na adolescência, os critérios de internação para estabilização incluíam temperatura abaixo de 36,3 graus e frequência cardíaca abaixo de 50 batimentos por minuto. A recuperação completa é possível, e a chance é maior quanto mais cedo o cuidado começa. Em emergência, procure o SAMU 192, e o CVV 188 atende 24 horas.
Referências
- SCHAUMBERG, K. et al. The science behind the Academy for Eating Disorders' Nine Truths About Eating Disorders. European Eating Disorders Review, v. 25, n. 6, p. 432-450, 2017. PMID: 28967161.
- LOCK, J.; LE GRANGE, D.; AGRAS, W. S.; MOYE, A.; BRYSON, S. W.; JO, B. Randomized clinical trial comparing family-based treatment with adolescent-focused individual therapy for adolescents with anorexia nervosa. Archives of General Psychiatry, v. 67, n. 10, p. 1025-1032, 2010. PMID: 20921118.
- LE GRANGE, D.; HUGHES, E. K.; COURT, A.; YEO, M.; CROSBY, R. D.; SAWYER, S. M. Randomized clinical trial of parent-focused treatment and family-based treatment for adolescent anorexia nervosa. Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry, v. 55, n. 8, p. 683-692, 2016. PMID: 27453082.
- BERGE, J. M.; MACLEHOSE, R.; LOTH, K. A.; EISENBERG, M.; BUCCHIANERI, M. M.; NEUMARK-SZTAINER, D. Parent conversations about healthful eating and weight: associations with adolescent disordered eating behaviors. JAMA Pediatrics, v. 167, n. 8, p. 746-753, 2013. PMID: 23797808.
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