MARCELO GOBBO JR.Artem Curant Medicina de Família e Saúde Mental ← Todos os textos

Saúde mental · 28 jul 2026

Como ajudar um filho que vive com ansiedade sem alimentar o medo?

Uma mãe dormia no chão do quarto do filho havia sete meses. A pesquisa deu nome ao que ela fazia, e mostrou um treinamento que devolve o sono à casa inteira.

6 min de leiturafilho com ansiedadeansiedade na infânciaacomodação familiartreinamento parentalsono da criança
Quarto à noite, com a porta entreaberta e uma poltrona ao lado Ilustração editorial em tons de marinho, areia e ocre. Um quarto escuro com uma cama pequena ao fundo, a porta entreaberta deixando entrar uma faixa de luz, e uma poltrona vazia junto à porta.
A poltrona ao lado da porta, no lugar do chão junto à cama.

Uma mãe me contou, quase pedindo desculpa, que fazia sete meses que dormia no chão do quarto do filho de nove anos. Começou numa noite de tempestade, virou hábito e depois virou regra da casa. Ela sabia que aquilo não estava certo, o marido sabia também, e nenhum dos dois imaginava como parar sem que a noite desabasse em choro perto das onze horas. Ninguém da família tinha dito ainda a palavra ansiedade em voz alta.

Ansiedade é o problema de saúde mental mais comum da infância. Uma meta-análise conduzida por Guilherme Polanczyk, na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, reuniu em 2015 41 estudos populacionais de 27 países e estimou que 6,5% das crianças e adolescentes do mundo vivem com algum transtorno de ansiedade. Numa sala de 30 alunos, é a conta de dois. Essa estatística não conta o que acontece em volta dessa criança, dentro de casa, todas as noites.

O que aquela mãe fazia no chão tem nome

Chama-se acomodação familiar, e descreve as mudanças que os pais fazem no próprio comportamento e na rotina da casa para poupar o filho do desconforto da ansiedade. Dormir ao lado da criança com ansiedade de separação, falar no lugar da criança com fobia social, responder pela décima vez à mesma pergunta, mudar o caminho para evitar o cachorro do vizinho. Nenhum desses gestos nasce de descuido. Todos nascem de amor e de cansaço, nessa ordem.

Eli Lebowitz e colegas, no Yale Child Study Center, publicaram em 2013 o primeiro estudo sistemático do fenômeno fora do transtorno obsessivo-compulsivo. Entrevistaram os pais de 75 crianças que viviam com ansiedade, nos Estados Unidos e em Israel, e 97,3% relataram algum grau de acomodação. Outros 70,7% contaram que acomodar lhes causava sofrimento, e 85,3% relataram consequências ruins quando tentavam não acomodar. Quanto mais acomodação, mais grave era a ansiedade medida na criança. O achado explica por que a acomodação cresce sozinha, já que cada cedida alivia a noite e ensina que o alívio vem de fora, e por que parar é tão difícil, já que parar dói na hora.

A culpa não está onde os pais costumam procurar

Muitas mães que sentam na minha frente com um filho que vive com ansiedade chegam com a mesma pergunta por baixo da consulta, o que foi que eu fiz de errado. A pesquisa responde com número. Bryce McLeod, Jeffrey Wood e John Weisz reuniram em 2007 47 estudos sobre práticas parentais e ansiedade infantil, e o conjunto delas explicou apenas 4% da variação da ansiedade das crianças. Os outros 96% moram em temperamento, genética, escola e coisas que a ciência ainda não sabe nomear. Dentro dos 4%, o calor parental explicou menos de 1%, o que significa que a ansiedade na infância não é falta de afeto. O que pesou foi o quanto os pais concedem autonomia ao filho, com 18%.

Autonomia, aqui, não é largar a criança sozinha diante do medo. É a diferença entre uma casa que assume o desconforto no lugar do filho e uma casa que fica ao lado enquanto ele atravessa. Foi isso que um grupo de pesquisadores resolveu testar, com uma pergunta pouco comum na psiquiatria da infância. E se o tratamento fosse entregue aos pais, e a criança nem entrasse na sala?

O ensaio que trocou o paciente de cadeira

Entre 2013 e 2018, a equipe de Eli Lebowitz e Wendy Silverman, em Yale, randomizou 124 crianças de 7 a 14 anos com transtorno de ansiedade. Metade recebeu terapia cognitivo-comportamental individual, 12 sessões, e os pais não receberam tratamento nenhum. A outra metade não pisou na terapia, porque quem ia às 12 sessões eram os pais. Esse segundo protocolo se chama SPACE, sigla em inglês para parentalidade de apoio para emoções ansiosas na infância.

O resultado saiu em 2020 no Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry, com desenho de não inferioridade, o método usado para saber se um tratamento novo alcança o mesmo resultado de outro que já funciona. O trabalho feito só com os pais não foi inferior em nenhum desfecho, na avaliação de examinadores independentes, dos pais e das crianças. Entre quem completou o estudo, 87,5% das crianças cujos pais fizeram o protocolo parental melhoraram muito ou muitíssimo, contra 75,5% na terapia individual, sem diferença estatística. A acomodação familiar caiu nos dois braços, e caiu mais quando o trabalho era com os pais.

Nada disso aposenta a terapia da criança. O ensaio CAMS, publicado por John Walkup e colegas em 2008 no New England Journal of Medicine, acompanhou 488 crianças e mostrou que a terapia cognitivo-comportamental no formato Coping Cat levou 59,7% delas a melhora clara, a sertralina 54,9%, e as duas juntas 80,7%, contra 23,7% do placebo. O ensaio de Yale acrescenta uma porta a mais, útil quando a criança se recusa a ir ao consultório ou quando quem está disponível para mudar são os pais.

O que os pais treinam, na prática

O protocolo tem duas peças, e a primeira é uma frase. Os pais aprendem a responder à ansiedade do filho de um jeito que, nas palavras do manual do estudo, reconhece a experiência da criança e ao mesmo tempo transmite confiança na capacidade dela de lidar com aquilo. São duas orações coladas. Eu sei que você está com medo de verdade, e eu sei que você é capaz de atravessar isso. A primeira metade sozinha vira acomodação disfarçada de empatia, um consolo que confirma que a situação é perigosa. A segunda sozinha vira cobrança. Juntas, repetidas sem variação, mudam o clima da casa antes de mudar comportamento.

A segunda peça é um mapa. Os pais listam, sem filtro e sem vergonha, todas as acomodações de uma semana comum, das grandes às minúsculas. A lista costuma passar de 20 itens e surpreender o casal. Depois escolhem uma única para modificar e escrevem um plano com o que vai mudar, a partir de que dia, e o que farão no lugar. O plano é comunicado à criança com antecedência, em tom de aviso carinhoso e nunca de ameaça, jamais no meio de uma crise. Quando aquela acomodação cede, escolhem a próxima.

Na história do quarto, o alvo escolhido não foi a saída do quarto, foi a poltrona. A mãe combinou com o filho, num domingo de manhã, que a partir da quarta-feira ficaria sentada na poltrona ao lado da porta até ele dormir, em vez de deitada no chão, e que diria a mesma frase todas as noites. As três primeiras noites foram ruins, como o protocolo prevê e como os pais precisam ouvir antes para não desistirem. Em cinco semanas a poltrona já tinha virado corredor. O que mudou primeiro não foi o medo do menino, foi a certeza dos pais de que ele aguentava.

Uma dúvida legítima é quanto disso precisa de terapeuta. Eric Storch e colegas, no Baylor College of Medicine, randomizaram em 2023 68 crianças para o protocolo completo, 12 sessões por telessaúde, ou para uma versão leve com um livro de apoio e 4 sessões. As taxas de resposta foram de 70% e 68%. Esse também não é o único caminho, e um ensaio no Irã em 2022, com 49 famílias, comparou o protocolo a outro programa parental e encontrou vantagem para o outro. A conclusão que carrego não é sobre marca de protocolo. É que treinar os pais funciona como tratamento, e não como apoio complementar ao tratamento de verdade.

Se você reconheceu a sua casa em algum trecho, o gesto cabe num papel e pode começar hoje mesmo. Anote cada vez que a rotina se moldou ao medo do seu filho, sem julgar nada e sem mudar nada por enquanto. Cada anotação é uma ponta solta, e o novelo que parece embolado costuma ter um fio da meada, aquele que, puxado devagar, desmancha o nó em vez de apertá-lo. Quando reconhecer o seu, escreva a frase de duas partes que vai dizer quando ele aparecer. Isso não substitui avaliação, e toda criança que vive com ansiedade merece um olhar individual. Mas o cuidado começa assim, segurando um fio de cada vez, e descobrindo que amor gasto na direção errada nunca foi falta de amor, e sim amor sem instrução.

Perguntas frequentes

Meu filho não quer ir para a escola. Isso é ansiedade ou birra?

As duas coisas parecem iguais na porta de casa, e o que separa uma da outra é o corpo e o alívio. Na ansiedade costumam aparecer dor de barriga, choro que já começa na véspera e um alívio imediato quando a ida é cancelada, seguido de mais medo no dia seguinte. No estudo de Yale sobre acomodação familiar, a ansiedade escolar foi um dos dois domínios de sintoma que mais previram o quanto a família cedia. Se isso se repete por semanas e atrapalha a rotina, vale uma avaliação em vez de um veredito dado em casa.

Meu filho só dorme se eu ficar no quarto. Estou fazendo mal a ele?

Ficar no quarto para acalmar uma criança assustada é um gesto de cuidado, e não um erro moral. O problema aparece quando esse arranjo vira regra, porque ele alivia a noite e ao mesmo tempo ensina que o alívio precisa vir de fora. Isso se chama acomodação familiar e apareceu em 97,3% das famílias de crianças que vivem com ansiedade estudadas em Yale. O caminho não é cortar a presença de uma vez, e sim mapear o que está sendo acomodado e reduzir um item por vez, com plano combinado antes e comunicado fora da crise.

O que eu falo quando meu filho está com medo?

Diga as duas coisas na mesma frase, que você acredita no medo dele e que confia na capacidade dele de atravessar aquilo. No protocolo testado em Yale, os pais aprendem respostas que, nas palavras do manual, reconhecem a experiência da criança e ao mesmo tempo transmitem confiança na capacidade dela de lidar com aquilo. Na prática soa mais ou menos como eu sei que você está com medo de verdade, e eu sei que você é capaz de atravessar isso. Só a primeira metade vira acomodação, e só a segunda vira cobrança.

A ansiedade do meu filho é culpa minha?

Não. Uma meta-análise de 47 estudos encontrou que o conjunto das práticas parentais explica apenas 4% da variação da ansiedade infantil, e o calor parental respondeu por menos de 1%. A ansiedade na infância não é falta de afeto nem falha de criação. O que os pais fazem pesa pouco como causa e muito como alavanca de tratamento, porque mudar a resposta da casa ao medo é uma das intervenções com melhor evidência disponível hoje.

Dá para tratar a ansiedade do meu filho sem que ele vá à terapia?

Em muitos casos, sim. Um ensaio clínico randomizado conduzido em Yale com 124 crianças comparou terapia cognitivo-comportamental individual a um protocolo feito apenas com os pais, sem nenhum contato da criança com o terapeuta, e o trabalho parental não foi inferior em nenhum desfecho. Isso ajuda especialmente quando a criança se recusa a ir ao consultório. A escolha ainda assim precisa de avaliação individual, porque terapia da criança e medicação seguem sendo opções eficazes e às vezes necessárias.

Quando devo procurar ajuda para a ansiedade do meu filho?

Procure quando o medo passa a decidir a rotina da casa. Alguns sinais práticos são faltar à escola, deixar de dormir no próprio quarto, recusar convites de amigos, e a família reorganizar horários e trajetos para evitar o que assusta. Duração também conta, porque medo pontual faz parte do desenvolvimento e semanas seguidas de prejuízo não fazem. Quanto mais a casa acomoda, mais grave costuma ser a ansiedade medida na criança, então acomodação diária já é por si um bom motivo para marcar uma avaliação.

Referências

  1. POLANCZYK, G. V.; SALUM, G. A.; SUGAYA, L. S.; CAYE, A.; ROHDE, L. A. Annual research review: a meta-analysis of the worldwide prevalence of mental disorders in children and adolescents. Journal of Child Psychology and Psychiatry, v. 56, n. 3, p. 345-365, 2015. DOI: 10.1111/jcpp.12381. PMID: 25649325.
  2. LEBOWITZ, E. R.; WOOLSTON, J.; BAR-HAIM, Y. et al. Family accommodation in pediatric anxiety disorders. Depression and Anxiety, v. 30, n. 1, p. 47-54, 2013. DOI: 10.1002/da.21998. PMID: 22965863.
  3. McLEOD, B. D.; WOOD, J. J.; WEISZ, J. R. Examining the association between parenting and childhood anxiety: a meta-analysis. Clinical Psychology Review, v. 27, n. 2, p. 155-172, 2007. DOI: 10.1016/j.cpr.2006.09.002. PMID: 17112647.
  4. LEBOWITZ, E. R.; MARIN, C.; MARTINO, A.; SHIMSHONI, Y.; SILVERMAN, W. K. Parent-based treatment as efficacious as cognitive-behavioral therapy for childhood anxiety: a randomized noninferiority study of Supportive Parenting for Anxious Childhood Emotions. Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry, v. 59, n. 3, p. 362-372, 2020. DOI: 10.1016/j.jaac.2019.02.014. PMID: 30851397.
  5. WALKUP, J. T.; ALBANO, A. M.; PIACENTINI, J. et al. Cognitive behavioral therapy, sertraline, or a combination in childhood anxiety. The New England Journal of Medicine, v. 359, n. 26, p. 2753-2766, 2008. DOI: 10.1056/NEJMoa0804633. PMID: 18974308.
  6. KENDALL, P. C.; CUMMINGS, C. M.; VILLABØ, M. A. et al. Mediators of change in the Child/Adolescent Anxiety Multimodal Treatment Study. Journal of Consulting and Clinical Psychology, v. 84, n. 1, p. 1-14, 2016. DOI: 10.1037/a0039773. PMID: 26460572.
  7. STORCH, E. A.; GUZICK, A. G.; AYTON, D. M. et al. Randomized trial comparing standard versus light intensity parent training for anxious youth. Behaviour Research and Therapy, v. 173, 104451, 2023. DOI: 10.1016/j.brat.2023.104451. PMID: 38154287.
  8. GHODRAT, M. S.; AGHEBATI, A.; ASGHARNEJAD FARID, A. A.; SHIRAZI, E. Comparison of the effectiveness of online supportive parenting intervention (SPACE) and Timid to Tiger program (FTTT) on childhood anxiety disorders and family accommodation with samples of Iranian parents. Frontiers in Psychology, v. 13, 1001705, 2022. DOI: 10.3389/fpsyg.2022.1001705. PMID: 36337538.
Dr. Marcelo Gobbo Jr.

Dr. Marcelo Gobbo Jr.
Médico de Família e Comunidade (CRM-MG 74.511 · RQE 69038), mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia, com estágio no Program for Recovery and Community Health, em Yale. Atende famílias atípicas e pessoas que convivem com o transtorno mental grave, no consultório e à distância.

Um cuidado que enxerga o todo

Se a sua família procura um médico que acompanhe de perto, ao longo do tempo, vamos conversar. O atendimento é presencial em Uberlândia e por videoconferência, para todo o Brasil e o mundo.

Agendar uma conversa

Você pensou em alguém enquanto lia? Envie este texto a essa pessoa: às vezes um bom texto, na hora certa, é onde um cuidado começa.

Link copiado!

Comentários

Um espaço para conversar sobre o texto. Não é canal de atendimento nem substitui consulta; para agendar, use o botão de conversa acima.