MARCELO GOBBO JR.Artem Curant Medicina de Família e Saúde Mental

Saúde mental · 7 ago 2026

Será que passo a minha ansiedade para o meu filho?

Recebo com frequência pais e mães que convivem com ansiedade e chegam com a mesma pergunta presa na garganta, quase sempre embrulhada em culpa, a de estarem passando esse jeito de sentir o mundo para os filhos. Gosto de começar pela parte que a ciência tem de mais tranquilizadora, porque ela mostra muito mais a fazer do que o medo deixa ver.

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Alguém firme ao lado enquanto o tempo muda por dentroUm adulto e uma criança sorriem juntos sob um guarda-chuva coral, com uma nuvem de chuva de um lado e o sol do outro, em tons pastel.
Ilustração: a ansiedade muda o tempo por dentro como o céu muda lá fora. O que protege a criança é ter, ao lado, alguém que atravessa a chuva e ainda mostra o caminho de volta ao sol.

Uma paciente que acompanho há alguns anos vive com um transtorno de ansiedade e estava, naquele dia, num período tranquilo. Sentou, respirou fundo, e antes de falar da própria medicação me fez a pergunta que vinha adiando havia meses. Doutor, será que estou passando a minha ansiedade para o meu filho. Contou que o menino, de oito anos, tinha começado a conferir duas vezes se a porta estava trancada e a perguntar, toda noite, se estava tudo bem. Ela reconhecia ali um gesto seu, e trazia no rosto o medo de ter ensinado sem querer. Respondi que a resposta existe, que ela é séria, e que é bem menos parecida com uma herança inevitável do que o silêncio faz crer.

O risco é real, e mais estreito do que o medo pinta

Comecei por onde começo sempre, pelo tamanho verdadeiro do risco, porque virar o rosto para ele não o diminui. Em 2019, Peter Lawrence e colegas, na Universidade de Reading, no Reino Unido, reuniram 25 estudos com 7.285 filhos de pais que viviam com um transtorno de ansiedade. Comparadas a filhos de pais sem esse diagnóstico, essas crianças tinham risco 1,76 vezes maior de desenvolver um transtorno de ansiedade. É um aumento que pede atenção, e está longe de ser uma sentença. E tem um detalhe que sempre faço questão de dizer a quem me pergunta, porque ele muda a vigilância dentro de casa. O risco não se concentra no mesmo medo do pai ou da mãe. Os autores não acharam sinal de que o filho de alguém que vive com pânico corra risco maior justamente de pânico, ou o de alguém com ansiedade de separação, de separação. O que atravessa as gerações é uma tendência mais ampla a sentir o mundo como ameaçador, e não a cópia de um sintoma.

O que a herança carrega, e o que ela não decide

Convém então olhar para a parte genética de frente, sem inflá-la. Em 2001, John Hettema e colegas, na Virginia Commonwealth University, nos Estados Unidos, juntaram os estudos com famílias e com gêmeos e estimaram que a genética responde por algo entre 32% e 43% da propensão à ansiedade, a depender do quadro. Li esse número muitas vezes com pacientes, e ele costuma aliviar, porque diz o contrário do que o medo supõe. Se a herança explica perto de um terço, a maior parte do que decide se uma criança vai ou não desenvolver ansiedade está no ambiente e na experiência, inclusive em experiências que nem sequer são compartilhadas pelos irmãos dentro da mesma casa. A genética inclina a mesa, ela não joga os dados.

Puxando o fio

A herança inclina, não decide

Em 2001, uma equipe da Virginia Commonwealth University reuniu os estudos com famílias e gêmeos e estimou que a genética responde por cerca de 32% a 43% da propensão à ansiedade.

Sobra a maior parte para o ambiente e a experiência, que é onde a família encontra margem para agir.

O que atravessa não é o diagnóstico, é o que a criança vê

Se não é sobretudo o gene, o que é. Uma pista firme veio de um estudo que gosto de contar, porque ele desmonta a culpa com dados. Em 2015, Golda Ginsburg e colegas, na Universidade de Connecticut e na Johns Hopkins, nos Estados Unidos, acompanharam 136 famílias em que um dos pais vivia com um transtorno de ansiedade e um filho de 6 a 13 anos ainda não tinha o diagnóstico. Quando mediram o que de fato previa a criança adoecer, não foi a ansiedade do pai ou da mãe em si, nem os pensamentos da criança. Foram duas outras coisas, o sofrimento visível do adulto e o quanto ele modelava respostas ansiosas na frente do filho, o evitar, o alarme, o conferir. Dito de outro jeito, não é a sua ansiedade que chega à criança, é o que ela vê você fazendo com ela. Costumo dizer isso devagar no consultório, porque tira um peso enorme da consciência, o que a criança aprende não é falha de ninguém nem falta de amor, é um hábito, e hábito se reaprende junto. Ao contrário de um gene, dá para mudar.

Não é destino, e já foi medido

Aqui entra a parte que mais interessava à mãe da pergunta. No mesmo estudo de 2015, as famílias foram sorteadas entre um programa breve, que ensinava justamente a lidar com a ansiedade sem transmiti-la, e um grupo que só recebia informação. Um ano depois, um transtorno de ansiedade tinha aparecido em 31% das crianças do grupo de informação e em apenas 5% das que passaram pelo programa. Preciso dizer também o que veio depois, para não vender promessa. No acompanhamento de seis anos, a mesma equipe viu que a vantagem se concentrou no primeiro ano e foi se diluindo, o que os autores leem como sinal de que essa conversa precisa de reforço ao longo do tempo, e não como fracasso. O recado clínico continua de pé. Ensinar a família a conviver com a ansiedade de outro jeito muda a trajetória da criança, sobretudo enquanto o hábito novo está sendo formado.

Ponto por ponto

A prevenção que já foi medida

Em 2015, uma equipe das universidades de Connecticut e Johns Hopkins acompanhou 136 famílias. Um ano após um programa breve, um transtorno de ansiedade tinha surgido em 5% das crianças, contra 31% no grupo que só recebeu informação.

No acompanhamento de seis anos, o efeito se concentrou no primeiro ano. É um cuidado que se reforça com o tempo, não uma dose única.

O que faço no consultório nasce desses três achados somados, e cabe em pouca coisa. Cuido da ansiedade do adulto com o rigor que ela merece, porque uma mãe ou um pai em tratamento e mais firme é um dos maiores presentes que a criança pode receber dentro de casa. Olho menos para o que o adulto sente e mais para o que ele deixa transparecer, porque é o gesto visível, e não o diagnóstico, que a criança copia. E acompanho o filho sem transformar cada receio comum da infância em sintoma, protegendo o sono, a escola e as amizades, que são o solo onde a segurança cresce devagar. Nada disso cabe numa pessoa só, e por isso trato a casa como unidade de cuidado, não o adulto ou a criança isolados.

O gesto que proponho a quem vive com ansiedade e tem filhos não é esconder o que sente, e sim narrar o caminho de volta, e dá para estrear ainda hoje. Na próxima vez que a preocupação aparecer, em vez de engolir o susto ou deixar que ele tome conta em silêncio, diga em voz alta, no vocabulário da idade da criança, algo como fiquei um pouco preocupada agora, vou respirar e pensar com calma, que já passa. A criança que só vê o alarme aprende o alarme. A que vê também a volta à calma aprende que o medo passa, e que existe o que fazer com ele. É um fio pequeno, e é dos que mais seguram. Puxado com paciência, ele mostra à criança não o medo do adulto, mas o jeito de sair dele. Nada disso substitui a avaliação individual de quem acompanha vocês, e é ao lado dela que essa conversa rende mais.

Perguntas frequentes

Se eu tenho ansiedade, meu filho vai ter também?

Ter um pai ou uma mãe que convive com ansiedade aumenta o risco, mas não é uma sentença. A melhor revisão disponível estima que essas crianças têm risco cerca de 1,76 vezes maior de desenvolver um transtorno de ansiedade, o que também quer dizer que a maioria não desenvolve, mesmo com a mesma herança. E o que passa de uma geração à outra é uma tendência mais ampla a sentir o mundo como ameaçador, e não a cópia do mesmo medo.

Como não passar a minha ansiedade para os meus filhos?

O que mais chega à criança não é o que o adulto sente por dentro, e sim o que ele mostra por fora, o evitar, o alarme, o conferir. Programas testados com famílias reduziram bastante o surgimento de ansiedade nas crianças ao ensinar o adulto a lidar com o próprio medo sem modelá-lo o tempo todo. Cuidar da própria ansiedade e narrar para a criança o caminho de volta à calma são dois passos concretos que ajudam.

O que eu faço quando meu filho me vê no meio de uma crise de ansiedade?

Esconder não costuma proteger, porque a criança percebe o clima e preenche o silêncio com a pior explicação, quase sempre a de que a culpa é dela. O caminho não é despejar a preocupação na criança nem fingir que ela não existe, e sim nomear o que se passa no vocabulário da idade dela e deixá-la ver também a volta à calma. A criança que só vê o alarme aprende o alarme; a que vê o susto e a recuperação aprende que o medo passa.

Tratar a minha ansiedade ajuda meus filhos?

Ajuda, e muito. Um adulto em tratamento e mais estável é um dos melhores fatores de proteção que a criança pode ter dentro de casa. Cuidar de si, nesse caso, é cuidar diretamente do filho, e não uma escolha entre um e outro. O plano do adulto e a atenção à criança caminham juntos, e é assim que costumo conduzir na consulta.

Referências

  1. LAWRENCE, P. J.; MURAYAMA, K.; CRESWELL, C. Systematic review and meta-analysis: anxiety and depressive disorders in offspring of parents with anxiety disorders. Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, v. 58, n. 1, p. 46-60, 2019. PMID: 30577938.
  2. HETTEMA, J. M.; NEALE, M. C.; KENDLER, K. S. A review and meta-analysis of the genetic epidemiology of anxiety disorders. American Journal of Psychiatry, v. 158, n. 10, p. 1568-1578, 2001. PMID: 11578982.
  3. GINSBURG, G. S. et al. Preventing onset of anxiety disorders in offspring of anxious parents: a randomized controlled trial of a family-based intervention. American Journal of Psychiatry, v. 172, n. 12, p. 1207-1214, 2015. PMID: 26404420.
  4. GINSBURG, G. S.; TEIN, J. Y.; RIDDLE, M. A. Preventing the onset of anxiety disorders in offspring of anxious parents: a six-year follow-up. Child Psychiatry & Human Development, v. 52, n. 4, p. 751-760, 2021. PMID: 33070244.
Dr. Marcelo Gobbo Jr.

Dr. Marcelo Gobbo Jr.
Médico de Família e Comunidade (CRM-MG 74.511 · RQE 69038), mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia e pesquisador associado no Departamento de Psiquiatria da Yale School of Medicine, junto ao Program for Recovery and Community Health. Atende famílias atípicas e pessoas que convivem com o transtorno mental grave, no consultório e à distância.

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