MARCELO GOBBO JR.Artem Curant Medicina de Família e Saúde Mental

Saúde mental · 9 ago 2026

Sou pai, como eu ajudo meu filho a se sentir seguro?

Muitos pais chegam ao consultório achando que são coadjuvantes na vida emocional dos filhos, e que o cuidado de verdade é com a mãe. Neste Dia dos Pais, reuni o que a pesquisa mostra sobre o efeito próprio da presença paterna, e sobre onde ela pesa mais do que se imagina.

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Um adulto sentado no chão, na altura da criançaUm adulto e uma criança sentados no chão frente a frente, empilhando blocos coloridos entre os dois, sob um sol quente, em tons pastel.
Ilustração: o que a criança registra não é o tamanho do gesto, é a altura em que o adulto se coloca para encontrá-la.

Um pai que conheci há pouco veio à consulta do filho e sentou na cadeira do canto, um passo atrás da esposa, como quem chegou de acompanhante. Durante quase toda a consulta ficou com o celular virado para baixo sobre a perna, atento e calado. Quando perguntei o que ele vinha achando do menino, respondeu que não saberia dizer, que quem entende dessas coisas em casa é a mãe. Já de pé, na porta, soltou a frase que me fez abrir outro horário só para ele. Doutor, eu ajudo bastante, mas para ele acho que faço pouca diferença. Escrevo isto num Dia dos Pais, e é essa frase que eu queria desmontar, porque a pesquisa responde o contrário dela.

O que o pai faz tem efeito próprio

Comecei por onde a evidência é mais firme. Em 2008, Anna Sarkadi e colegas, na Universidade de Uppsala, na Suécia, reuniram 24 estudos que acompanharam crianças ao longo do tempo para medir o efeito do envolvimento do pai, e em 22 deles esse envolvimento apareceu ligado a desfechos melhores, com menos problemas de comportamento entre os meninos e menos sofrimento psíquico entre as filhas já adultas jovens. Vale entender o que esse tipo de contagem diz e o que não diz. Ela mostra que o achado apontou para a mesma direção em quase todos os trabalhos, o que é sinal de consistência, e não mede o tamanho do ganho dentro de cada família. Os autores incluíram de propósito tanto pais biológicos quanto outras figuras paternas, porque o que chega à criança não vem do laço de sangue, vem de quem aparece.

Há ali um detalhe que uso muito no consultório. De todas as formas de envolvimento medidas, a que se mostrou ligada aos bons desfechos foi o engajamento, nome técnico para interagir diretamente com a criança. Morar na mesma casa rendeu pouco por si só, e prover não bastou. E nenhum tipo de interação se mostrou melhor que outro, o que tira um peso de quem acha que precisa descobrir a brincadeira certa.

Puxando o fio

O que pesa é aparecer

Em 2008, uma equipe da Universidade de Uppsala reuniu 24 estudos de acompanhamento e encontrou efeitos positivos do envolvimento paterno em 22 deles, com menos problemas de comportamento nos meninos e menos sofrimento psíquico nas filhas já adultas.

O que apareceu ligado a esses ganhos foi a interação direta com a criança, e nenhum tipo de brincadeira se mostrou superior a outro.

O vínculo com o pai nasce de responder, não de entreter

A pergunta seguinte é como esse vínculo se forma. Em 2011, Nicole Lucassen e colegas, no centro médico da Universidade Erasmus, em Roterdã, na Holanda, juntaram 16 estudos com 1.355 bebês em que a sensibilidade do pai foi observada e a segurança do apego com ele foi medida por um procedimento padronizado de laboratório, com separações e reencontros breves, em que se olha se o bebê procura aquele adulto para se acalmar. Quanto mais sensível o pai, mais seguro o vínculo, numa associação de 0,12.

Esse número pede tradução. Ele é uma correlação, que vai de 0, quando duas coisas não guardam relação nenhuma, até 1, quando uma acompanha a outra perfeitamente. O 0,12 está perto do começo dessa escala, e prefiro dizer isso a inflar o número diante de um pai que confia em mim. O que ele significa na prática é que a sensibilidade empurra o vínculo na direção da segurança quando se olha para muitas famílias ao mesmo tempo, e que ela sozinha não permite adivinhar o que se passa dentro de uma casa específica. É um fio entre vários, e não a chave que abre tudo. Números assim descrevem tendências de população, e nenhum deles foi feito para dizer a um pai como está o filho dele.

Falta dizer o que os pesquisadores chamam de sensibilidade, porque a palavra em português sugere emotividade, e não é disso que se trata. Na pesquisa, sensibilidade é perceber o sinal que a criança dá, entender o que ele quer dizer e responder de forma pronta e adequada. É uma habilidade de leitura, e não um traço de temperamento. Na prática, é notar que um bebê agitado e explorando pede resposta diferente da do bebê quieto e recolhido, e agir conforme o que se leu. Nos ensaios que medem isso, nada é perguntado ao pai, tudo é observado. No estudo holandês que cito adiante, por exemplo, avaliadores treinados assistiam a 10 minutos de interação e davam uma nota numa escala de 1, para o adulto que não registra os sinais do bebê, a 9, para o que os lê e responde com precisão. Com filho maior, eu traduzo isso na consulta de um jeito mais curto. Sensibilidade é a diferença entre responder ao que a criança está dizendo e responder ao que você imaginou que ela disse.

O achado que me interessa ali é o outro. A brincadeira estimulante, aquela cena do pai que joga para o alto e agita, não previu mais segurança no vínculo do que a interação sensível sem estimulação nenhuma. O que constrói o laço não é o entretenimento, e essa leitura acontece muito mais na hora do banho, na troca de roupa e na pergunta feita no caminho da escola do que em qualquer programa especial de domingo.

Cuidar de si é parte do cuidado com o filho

Existe um caminho pelo qual o pai alcança o filho que quase não se conversa dentro de casa, e é o próprio adoecimento dele. Em 2005, Paul Ramchandani e colegas, na Universidade de Oxford, no Reino Unido, mediram sintomas depressivos em pais 8 semanas depois do nascimento do bebê, com informação completa de 8.431 deles, e foram ver essas crianças aos 3 anos e meio. Os filhos dos homens que viviam com depressão naquele período tiveram cerca de 2 vezes mais chance de apresentar problemas emocionais e de comportamento, e o efeito continuou de pé mesmo depois de descontar a depressão da mãe.

Esse dobro merece leitura honesta, porque assusta mais do que deveria. Ele compara grupos e não descreve o destino de uma criança. Dobrar uma chance que já era pequena continua entregando uma chance pequena, e a maior parte do que decide o rumo de cada família fica fora dessa conta. O estudo traz ainda uma margem de incerteza, de 1,42 a 3,08, e o que dá firmeza ao achado é ela não encostar em 1, já que 1 significaria não haver diferença entre os grupos.

Em 2019, a mesma linha de pesquisa acompanhou 3.176 duplas de pai e filho até os 18 anos e encontrou mais sintomas depressivos nos jovens cujos pais tinham vivido com depressão logo após o parto, com boa parte desse caminho passando pela depressão materna que veio junto. Não conto isso para culpar quem adoeceu, e digo essa frase em voz alta na consulta. Conto porque é o melhor argumento que tenho para convencer um homem a procurar ajuda, já que tratar o que ele sente é cuidado direto com o filho.

Ponto por ponto

A saúde do pai entra na conta

Em 2005, uma equipe da Universidade de Oxford acompanhou milhares de famílias e viu cerca de 2 vezes mais problemas emocionais e de comportamento aos 3 anos e meio entre os filhos de homens que viviam com depressão logo após o parto, mesmo descontando a depressão da mãe.

Procurar tratamento não é abandonar o posto. É a forma mais direta de proteger a criança.

Sensibilidade não é dom, se aprende

Falta a parte que mais interessa a quem acha que já perdeu o bonde. Em 2022, Renate Buisman e colegas, na Vrije Universiteit de Amsterdã, na Holanda, sortearam 73 homens que esperavam o primeiro filho entre um programa breve de video-feedback, feito na gestação a partir das imagens do ultrassom, e um grupo de comparação. Os que passaram pelo programa mostraram mais sensibilidade na interação com o próprio bebê depois do nascimento. É um estudo pequeno e recente, e digo isso com todas as letras, mas ele sustenta o que vejo na prática, que sensibilidade paterna não é talento de nascença, e sim habilidade que se treina.

Digo isso com frequência para um tipo específico de pai, o que cresceu sem ter de quem copiar. Ele chega dizendo que não sabe ser o que nunca viu, e costuma ter razão sobre o passado e estar errado sobre o futuro. Se a habilidade se aprende, o que faltou na casa de origem vira lacuna, e não sentença. Tenho acompanhado homens montando, já adultos, um repertório de cuidado que os próprios pais nunca tiveram, quase sempre com ajuda e sem pressa.

O que faço no consultório nasce desses achados somados, e é menos do que os pais imaginam. Chamo o pai pelo nome e ofereço a cadeira do lado, não a do canto, porque o lugar onde ele senta costuma repetir o lugar que ele ocupa em casa. Pergunto qual tarefa inteira ele assume sozinho, do começo ao fim, já que ajudar por pedaços mantém o adulto na posição de assistente e ensina à criança a quem recorrer. E cuido da saúde mental dele com o mesmo rigor com que cuidaria da mãe, porque um pai em tratamento é um pai mais disponível. Nada disso cabe numa pessoa só, e por isso trato a casa como unidade de cuidado, não o pai ou a criança isolados.

O gesto que proponho a quem é pai cabe em dez minutos, e dá para começar ainda hoje. Sente no chão, deixe a criança escolher a brincadeira e siga o que ela fizer, sem corrigir, sem ensinar e sem transformar aquilo em lição. Se der vontade de falar, descreva o que está vendo, algo como você empilhou tudo de novo. Parece pouco perto do tamanho do amor que você sente, e a diferença mora justamente aí, porque criança não mede amor por declaração, mede por repetição. Cada um desses dez minutos é um fio, e é a soma deles que segura. Nada disso substitui a avaliação individual de quem acompanha vocês, e é ao lado dela que essa conversa rende mais.

Perguntas frequentes

Meu envolvimento como pai faz mesmo diferença na vida do meu filho?

Faz, e tem efeito próprio, que não é a sombra do que a mãe faz. A maior revisão de estudos que acompanharam crianças ao longo do tempo encontrou efeitos positivos do envolvimento paterno em 22 dos 24 trabalhos reunidos, com menos problemas de comportamento entre os meninos e menos sofrimento psíquico entre as moças já adultas. O que apareceu ligado a esses desfechos foi o engajamento, que é interagir diretamente com a criança, e não apenas morar junto ou prover.

O que eu faço se meu filho só chama a mãe?

Continue disponível sem disputar. A criança procura quem já respondeu antes, e é a repetição de pequenas respostas suas que constrói esse caminho. Assuma tarefas inteiras em vez de ajudar por partes, como um banho do começo ao fim ou a hora de dormir com a história, porque é ali que a criança aprende que você também acalma. O tempo faz o resto, e costuma fazer mais rápido do que os pais esperam.

Preciso ser o pai divertido para meu filho gostar de mim?

Não é preciso, e esse é um dos alívios que a pesquisa traz. A meta-análise que juntou três décadas de pesquisa sobre sensibilidade paterna e apego mostrou que a brincadeira agitada e estimulante não previu mais segurança no vínculo do que a interação sensível sem estimulação nenhuma. O que constrói o laço é perceber o sinal da criança e responder a ele, o que costuma acontecer nos momentos comuns do dia, e não numa performance de bom humor.

Sou pai e desconfio que estou com depressão, isso afeta meu filho?

Pode afetar, e é o melhor motivo para procurar ajuda em vez de aguentar calado. Um estudo britânico com milhares de famílias encontrou mais problemas emocionais e de comportamento aos 3 anos e meio entre os filhos de homens que viviam com depressão logo após o nascimento, um efeito que se manteve mesmo descontando a depressão da mãe. Tratar o que você sente é cuidado direto com seu filho, e não uma escolha entre um e outro.

Referências

  1. SARKADI, A.; KRISTIANSSON, R.; OBERKLAID, F.; BREMBERG, S. Fathers' involvement and children's developmental outcomes: a systematic review of longitudinal studies. Acta Paediatrica, v. 97, n. 2, p. 153-158, 2008. PMID: 18052995.
  2. LUCASSEN, N. et al. The association between paternal sensitivity and infant-father attachment security: a meta-analysis of three decades of research. Journal of Family Psychology, v. 25, n. 6, p. 986-992, 2011. PMID: 22004434.
  3. RAMCHANDANI, P.; STEIN, A.; EVANS, J.; O'CONNOR, T. G. Paternal depression in the postnatal period and child development: a prospective population study. The Lancet, v. 365, n. 9478, p. 2201-2205, 2005. PMID: 15978928.
  4. GUTIERREZ-GALVE, L. et al. Association of maternal and paternal depression in the postnatal period with offspring depression at age 18 years. JAMA Psychiatry, v. 76, n. 3, p. 290-296, 2019. PMID: 30586134.
  5. BUISMAN, R. S. M. et al. Fathers' sensitive parenting enhanced by prenatal video-feedback: a randomized controlled trial using ultrasound imaging. Pediatric Research, v. 93, n. 4, p. 1024-1030, 2022. PMID: 35906314.
Dr. Marcelo Gobbo Jr.

Dr. Marcelo Gobbo Jr.
Médico de Família e Comunidade (CRM-MG 74.511 · RQE 69038), mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia e pesquisador associado no Departamento de Psiquiatria da Yale School of Medicine, junto ao Program for Recovery and Community Health. Atende famílias atípicas e pessoas que convivem com o transtorno mental grave, no consultório e à distância.

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