MARCELO GOBBO JR.Artem Curant Medicina de Família e Saúde Mental ← Todos os textos

Saúde mental · 25 jul 2026

Os transtornos mentais mudam com a idade, e a família muda com eles

Acompanho famílias inteiras ao longo do tempo e vejo os transtornos mentais surgirem em idades típicas, enquanto a casa muda de forma ao redor. Reúno aqui esse mapa duplo, o da vida de cada um e o da família.

5 min de leituratranstornos ao longo da vidaidade de iníciociclo de vida da famíliaprevenção em saúde mentalsaúde mental na velhice

Numa mesma família que acompanho há anos, já cuidei do sono de uma criança pequena, da ansiedade do pai no auge do trabalho e, mais tarde, da memória do avô. Eram três pessoas, três idades e três motivos de consulta, e ainda assim havia um fio ligando tudo, a maneira como cada fase da vida traz os seus próprios riscos e como a casa inteira se reorganiza a cada um deles. Quero falar desse mapa duplo, o da vida de cada um e o da família que abriga todos.

Cada transtorno tem sua época de aparecer

A idade em que um transtorno mental costuma começar não é aleatória, e a maior fotografia disso veio de Marco Solmi e colegas, na Universidade de Pádua, na Itália, que em 2022 reuniram 192 estudos com mais de 700 mil pessoas. O pico de início de qualquer transtorno mental ficou nos 14 anos e meio, e quase metade dos casos, 48%, já havia começado antes dos 18. O mesmo trabalho desenhou uma linha do tempo, com os medos e a ansiedade de separação chegando na infância, os transtornos alimentares e o uso de substâncias na adolescência, a esquizofrenia despontando no início da vida adulta, e a depressão, o transtorno bipolar e o estresse pós-traumático já mais para os 30. Cada época da vida tem, por assim dizer, seus visitantes mais prováveis.

Um retrato clássico da psiquiatria já apontava para o mesmo lugar. Ronald Kessler e sua equipe, em Harvard, mostraram em 2005 que metade de todos os transtornos que uma pessoa terá na vida começa até os 14 anos e três quartos até os 24, com a ansiedade surgindo por volta dos 11 e os transtornos de humor mais tarde, perto dos 30. Saber disso muda o momento de cuidar, porque coloca boa parte da prevenção na infância e na adolescência, e não na vida adulta já instalada.

A família também passa por fases, e cada uma cobra diferente

Enquanto a pessoa envelhece, a família ao redor vive o próprio ciclo, do casal jovem à casa com filhos pequenos, dos adolescentes à saída deles, até o tempo de cuidar dos mais velhos. Cada fase muda o significado do mesmo transtorno. Uma depressão no pai de crianças pequenas desorganiza a rotina de cuidado, a mesma depressão num casal de idosos pesa sobre a solidão, e um primeiro surto psicótico num filho de vinte anos, bem na idade que a ciência aponta como provável, sacode a família toda de uma vez. O transtorno é da pessoa, mas o abalo se distribui pela casa conforme a estação que ela vive.

Esse peso não é impressão, e sim algo que a pesquisa já mediu. Uma revisão conduzida por Rebecca Addo e colegas, publicada em 2018, reuniu estudos sobre o custo de cuidar de alguém com transtorno mental grave e encontrou cuidadores que eram, em sua maioria, familiares, quase sempre com sobrecarga de moderada a intensa, marcada por aperto financeiro, perda de produtividade e até de emprego. Quando falo em tratar a família junto, não é retórica, é reconhecer quem sustenta o cuidado no dia a dia.

Os dois relógios andam juntos

O ciclo da pessoa e o ciclo da família não correm em separado. Ainda com Kessler, agora num estudo de 2010 com quase 52 mil pessoas em 21 países, as adversidades ligadas a um ambiente familiar disfuncional, como conviver com um pai que tem transtorno mental, ou sofrer abuso e negligência, foram as que mais previram transtornos depois, dentro de um conjunto de adversidades da infância que respondia por cerca de 30% de todos os casos ao longo da vida. O que acontece na família de origem ecoa por décadas na saúde mental de quem cresceu ali.

No outro extremo da vida, a conta reaparece. Uma metanálise de 2024 conduzida por Qing Wang e colegas, na China, reuniu 48 estudos com mais de 28 mil idosos que viviam em instituições de longa permanência e encontrou sintomas depressivos em cerca de metade deles, com a solidão e a falta de apoio social entre os principais fatores. A família que se afasta e a que permanece por perto fazem diferença mensurável no humor de quem envelhece, o que devolve ao cuidado familiar um papel concreto justamente na ponta final do ciclo.

O que faço com esse mapa no consultório

Conhecer as duas linhas do tempo muda a forma de acompanhar uma família. Diante de uma criança, fico atento aos sinais que a idade torna mais prováveis, sem transformar a infância em vigilância. Diante de um adolescente ou de um adulto jovem, sei que é a janela em que a psicose e as alterações de humor podem estrear, e trato queixa nova com atenção redobrada. Diante de um idoso, pergunto pela solidão com o mesmo cuidado com que pergunto pela pressão. E, em qualquer idade, olho para quem está ao redor, porque é a família que atravessa todas essas fases carregando cada uma, como venho escrevendo em outros textos.

O gesto para hoje ou amanhã é desenhar, de cabeça, o relógio da sua família. Repare em que fase cada pessoa querida está, quem se aproxima de uma idade de maior risco e quem, hoje, carrega quase sozinho o cuidado de outro. Não é diagnóstico, e ninguém aqui prometeu isso. É começar a enxergar a saúde mental como algo que caminha com o tempo, na pessoa e na casa, e que por isso pode ser cuidado bem antes de virar crise.

Perguntas frequentes

Existe uma idade mais comum para os transtornos mentais começarem?

Sim, e um grande estudo internacional que reuniu 192 pesquisas apontou o pico de início por volta dos 14 anos e meio, com quase metade dos casos começando antes dos 18. Cada transtorno tem sua época mais provável, os medos e a ansiedade na infância, o uso de substâncias e os transtornos alimentares na adolescência, e a psicose e o humor mais para a vida adulta. Por isso boa parte da prevenção mira a infância e a adolescência.

O que a fase da família tem a ver com a saúde mental de cada um?

A mesma doença pesa de formas diferentes conforme a família esteja criando filhos pequenos, lidando com adolescentes ou cuidando de idosos. Além disso, o ambiente da família de origem influencia o risco ao longo da vida, e a sobrecarga de cuidar recai quase sempre sobre familiares. Olhar para a fase da família ajuda a antecipar onde o cuidado precisa entrar primeiro.

Dá para prevenir sabendo dessas idades de risco?

Conhecer as janelas de maior risco permite agir mais cedo, procurando ajuda diante de sinais novos na infância, na adolescência ou no início da vida adulta, em vez de esperar o quadro se instalar. Prevenção não é garantia, mas mudar o momento em que se cuida melhora os desfechos. Nada disso substitui a avaliação individual feita pelo profissional que acompanha a família.

Referências

  1. SOLMI, M.; RADUA, J.; OLIVOLA, M. et al. Age at onset of mental disorders worldwide: large-scale meta-analysis of 192 epidemiological studies. Molecular Psychiatry, v. 27, n. 1, p. 281-295, 2022. DOI: 10.1038/s41380-021-01161-7. PMID: 34079068.
  2. KESSLER, R. C.; BERGLUND, P.; DEMLER, O.; JIN, R.; MERIKANGAS, K. R.; WALTERS, E. E. Lifetime prevalence and age-of-onset distributions of DSM-IV disorders in the National Comorbidity Survey Replication. Archives of General Psychiatry, v. 62, n. 6, p. 593-602, 2005. DOI: 10.1001/archpsyc.62.6.593. PMID: 15939837.
  3. KESSLER, R. C.; McLAUGHLIN, K. A.; GREEN, J. G. et al. Childhood adversities and adult psychopathology in the WHO World Mental Health Surveys. The British Journal of Psychiatry, v. 197, n. 5, p. 378-385, 2010. DOI: 10.1192/bjp.bp.110.080499. PMID: 21037215.
  4. ADDO, R.; AGYEMANG, S. A.; TOZAN, Y.; NONVIGNON, J. Economic burden of caregiving for persons with severe mental illness in sub-Saharan Africa: a systematic review. PLoS One, v. 13, n. 8, e0199830, 2018. DOI: 10.1371/journal.pone.0199830. PMID: 30092073.
  5. WANG, Q.; HUANG, X.; LIU, M. et al. Prevalence and risk factors of depression among elderly people in nursing homes from 2012 to 2022: a systematic review and meta-analysis. Aging & Mental Health, v. 28, n. 12, p. 1569-1580, 2024. DOI: 10.1080/13607863.2024.2367044. PMID: 38952191.
Dr. Marcelo Gobbo Jr.

Dr. Marcelo Gobbo Jr.
Médico de Família e Comunidade (CRM-MG 74.511 · RQE 69038), mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia, com estágio no Program for Recovery and Community Health, em Yale. Atende famílias atípicas e pessoas que convivem com o transtorno mental grave, no consultório e à distância.

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