Saúde mental · 2 set 2026
Durmo demais e como demais, isso pode ser depressão?
Ela me disse que estava dormindo onze horas por noite e ainda acordando cansada, e pediu desculpa por isso na mesma frase. Tinha 23 anos e era o primeiro episódio. Fui atrás do que a pesquisa diz sobre esse formato de depressão e encontrei uma coisa que muda o jeito de olhar. De quatro perfis depressivos acompanhados por seis anos na Holanda, o único que andou junto com marcadores de inflamação e de síndrome metabólica foi justamente esse, o do sono e do apetite aumentados.
Vou descrever o corpo dela naquela manhã, porque é do corpo que este texto trata. Onze horas de sono e o despertador tocando três vezes antes de ela conseguir sentar. Os pés no chão frio e os braços pendendo ao lado do corpo com um peso que ela comparou ao de carregar areia molhada dentro das mangas. A boca seca desde a noite. A vontade imediata, antes do café, de comer alguma coisa doce, e o pote de sorvete da noite anterior ainda na pia. Quatro quilos a mais em três meses, que ela sabia de cabeça, sem precisar conferir. E a explicação que ela trouxe pronta para tudo isso, que era preguiça.
O que ela descreveu tem nome no manual, e o nome é ruim. Chama-se depressão com características atípicas. O especificador exige que o humor ainda reaja a coisas boas, junto de pelo menos duas destas quatro características, comer demais, dormir demais, o peso de chumbo nos braços e nas pernas, e uma sensibilidade à rejeição que atravessa a vida da pessoa e não só o episódio.
Onze horas de sono, quatro quilos em três meses, o pote de sorvete na pia, os braços pesados e a vontade de sumir quando alguém demora a responder uma mensagem. É assim que ela conta, e no fim da frase ela diz que é preguiça.
Onze horas de sono, quatro quilos em três meses, o pote de sorvete na pia, os braços pesados e a vontade de sumir quando alguém demora a responder uma mensagem. É assim que ela conta, e no fim da frase eu digo que são quatro dos critérios.
Atípico é um nome que não fecha a conta
Atípico quer dizer fora do padrão, e o número desmente o nome. Num estudo holandês com 1.115 pessoas em episódio depressivo atual, essa apresentação apareceu em 24,6% das mulheres e em 17,3% dos homens. Uma em cada quatro mulheres em episódio depressivo não é exceção de coisa nenhuma.
A maior pesquisa já feita sobre esse quadro foi conduzida por Carlos Blanco e colegas, na Universidade Columbia, com uma amostra representativa de 43.093 adultos nos Estados Unidos. Na comparação entre quem teve episódio depressivo com e sem essas características, o grupo com características atípicas reuniu mais mulheres, início mais jovem, mais episódios ao longo da vida, episódios mais incapacitantes e relatos mais numerosos de história familiar de depressão e de transtorno bipolar tipo I. Os autores concluem que essa apresentação pode ser mais comum e mais incapacitante do que se documentava até ali.
Naquele estudo holandês com 1.115 pessoas, as mulheres tiveram o primeiro episódio depressivo em média aos 27,8 anos, e os homens aos 31,6 anos. O primeiro episódio chega mais cedo nelas, e é entre elas que esse quadro aparece mais.
O que a reatividade do humor faz
Esse é o critério que mais engana, inclusive quem está dentro do episódio. O humor ainda reage, então ela ri de uma piada boa, tem um sábado razoável, sai com uma amiga e volta para casa achando que o resto da semana foi falta de vontade. Como as pessoas em volta também viram aquele sábado, a leitura que se faz em casa é a mesma.
Na depressão melancólica, que virou sinônimo de depressão no imaginário, o prazer some por igual e o quadro fica visível de fora. A apresentação que ainda reage ao ambiente é mais difícil de enxergar, e não é mais leve por isso.
Onze horas de sono e quatro quilos
Uma equipe coordenada por Femke Lamers, no centro médico da Universidade VU de Amsterdã, acompanhou por seis anos os participantes de um grande estudo holandês sobre depressão e ansiedade, com mais de 7.000 observações em três ondas, e separou quatro dimensões dentro da depressão. A dimensão dos sintomas atípicos ligados à energia, que é a do sono e do apetite, foi a única que se associou de forma consistente a marcadores de inflamação e à síndrome metabólica, no momento da avaliação e também no seguimento. A dimensão melancólica andou na direção contrária, com melhor saúde metabólica.
Depois disso, o mesmo grupo mediu 171 proteínas no sangue de 1.621 pessoas e procurou agrupamentos. Um deles reunia 21 proteínas, entre elas a proteína C reativa, a leptina e a insulina, e apareceu associado à depressão. No nível de cada sintoma, esse agrupamento se ligou a 10 deles, e 5 eram os atípicos ligados à energia. Depois de descontar hábitos de vida e outras condições de saúde, 4 sintomas continuaram de pé, e 3 deles são os desta conversa, dormir demais, comer demais e ganhar peso.
Preciso dizer o que isso não significa. Não existe exame de sangue que diagnostique depressão, e nenhum desses marcadores confirma nem exclui coisa alguma numa pessoa específica. O que os dois estudos mostram é que essa apresentação anda junto de alterações metabólicas de um jeito que a melancólica não anda. Esse peso tem correspondência no corpo.
Ela chegou pedindo desculpa
Ela chegou contando um problema de disciplina, e o vocabulário que trouxe vinha de outro campo. Falou em preguiça, em falta de força de vontade e em desleixo, três palavras que descrevem caráter, e nenhuma delas descreve sintoma. Passou por uma nutricionista antes de passar por mim, o que faz todo sentido do ponto de vista dela, porque o que estava incomodando eram os quatro quilos.
A sensibilidade à rejeição foi a parte que ela contou por último e quase de passagem. Uma mensagem sem resposta durante a tarde inteira, um convite que não veio, um tom seco de uma colega, e o dia acabava ali. Já ouvi esse traço ser chamado de excesso de sensibilidade, quando ele está na lista de critérios, e essa sensibilidade não vai embora junto com o episódio, do jeito que o sono volta ao normal.
O que levar anotado
Quatro anotações fazem uma consulta render mais, e nenhuma delas exige aparelho nem aplicativo. A primeira é a hora em que você deitou e a hora em que levantou, por alguns dias seguidos, sem tentar corrigir nada enquanto anota. A segunda é o peso de agora e o de três ou seis meses atrás, com a data de cada um.
A terceira é uma frase sobre os braços e as pernas, dizendo com as suas palavras como é esse peso e a que horas do dia ele aparece. A quarta é a mais fácil de esquecer, e é a história da família, quem já teve depressão, quem já teve episódios de agitação ou de humor muito elevado, e quem tomou o quê.
Aos 23 anos e no primeiro episódio
Duas coisas do que aqueles estudos descrevem pedem um seguimento mais longo do que uma consulta só. A primeira é o começo cedo, porque, nos dados de Blanco, quem começou cedo teve mais episódios ao longo da vida, e o que se combina no primeiro episódio molda o modo como os próximos vão ser enfrentados.
A segunda é a história familiar. No estudo americano, relatos de transtorno bipolar tipo I entre familiares foram mais numerosos entre quem teve episódio com essas características do que entre quem teve episódio sem elas. Isso descreve a família, e não a pessoa que está na consulta. Ter características atípicas no primeiro episódio não significa ter transtorno bipolar, e história familiar não é diagnóstico. O que muda na prática é que vale a pena continuar acompanhando essa pessoa, com um olho em como o humor se comporta ao longo dos meses, em vez de encerrar o caso na primeira receita.
Sobre tratamento, Frederic Quitkin, um dos autores que ajudaram a descrever essa apresentação, registra boa resposta ao tratamento antidepressivo. O resultado varia de pessoa para pessoa. Qual caminho seguir, em que ordem e com o quê é conversa de consultório, porque depende do que mais está acontecendo na vida de cada uma e do que já foi tentado antes.
Se você se reconheceu nesse corpo, o gesto que cabe hoje ou amanhã é só anotar. Abra o bloco de notas do celular e escreva a hora em que você deitou e a hora em que levantou, sem tentar consertar nada e sem se cobrar por nenhum dos dois números. Faça isso por alguns dias. Esse horário anotado é o fio por onde a conversa começa, e vale mais do que a palavra preguiça. Leve essa anotação para uma avaliação individual, que é onde ela rende de verdade. E se em algum desses dias vier o pensamento de que não vale a pena continuar, não espere a anotação ficar pronta, ligue 188, que é o CVV, ou procure atendimento no mesmo dia. Ninguém precisa chegar organizada para ser atendida.
Perguntas frequentes
É normal dormir onze horas e acordar cansada?
Dormir muito além do habitual e acordar sem descanso é motivo para investigar. Esse padrão aparece em várias condições, do hipotireoidismo à anemia e à apneia do sono, e também está entre os critérios da depressão com características atípicas. A saída não é decidir sozinha qual das hipóteses é a sua. É anotar os horários por alguns dias e levar isso para uma consulta, junto do que mudou no apetite e no peso.
Como sei se é depressão ou preguiça?
Preguiça é uma palavra de caráter, e o que você está descrevendo pode ser um conjunto de sintomas com nome e critérios. A depressão com características atípicas exige que o humor ainda reaja a coisas boas, junto de pelo menos duas destas quatro características, comer demais, dormir demais, o peso de chumbo nos braços e nas pernas, e uma sensibilidade forte à rejeição. Se você reconhece vários desses sinais há semanas, o caminho não é fechar a hipótese sozinha. É levar o que anotou para uma avaliação.
O que eu faço se ainda consigo rir e me divertir?
Isso não descarta depressão. A reatividade do humor está entre os critérios, o que significa que ter um sábado bom e voltar a afundar na segunda faz parte do quadro. Leve para a consulta essa informação inteira, o que melhora, por quanto tempo melhora e o que acontece depois. Quem convive com você também viu o sábado bom, e é por isso que essa parte precisa ser dita em voz alta.
Por que meu peso subiu junto com a tristeza?
Nessa apresentação o apetite aumenta em vez de sumir, e o ganho de peso vem junto. Um estudo holandês que acompanhou pessoas por seis anos encontrou que, de quatro perfis depressivos, só o dos sintomas atípicos ligados à energia se associou a marcadores de inflamação e à síndrome metabólica. Isso não é um exame que diagnostique nada, e ajuda a entender por que a balança entrou na história.
Quando devo procurar ajuda se é o meu primeiro episódio?
Não espere passar sozinha para ter direito à consulta. O primeiro episódio é onde se aprende o que funciona para você, e nos estudos essa apresentação começa mais cedo na vida, o que faz o acompanhamento valer ainda mais. Se os sintomas estão atrapalhando o trabalho, o estudo ou as relações há algumas semanas, já é hora de marcar.
Dá para tratar a depressão com características atípicas?
Dá, e a literatura descreve boa resposta ao tratamento antidepressivo. O resultado varia de pessoa para pessoa. Qual caminho seguir, em que ordem e com o quê é decisão de consultório, porque depende do que mais está acontecendo na sua vida, do que você já tentou e de como o seu corpo respondeu antes.
Referências
- QUITKIN, F. M. Depression with atypical features: diagnostic validity, prevalence, and treatment. Primary Care Companion to the Journal of Clinical Psychiatry, v. 4, n. 3, p. 94-99, 2002. PMID: 15014736.
- BLANCO, C. et al. Epidemiology of major depression with atypical features: results from the National Epidemiologic Survey on Alcohol and Related Conditions (NESARC). The Journal of Clinical Psychiatry, v. 73, n. 2, p. 224-232. Publicado on-line em 6 set. 2011. PMID: 21939615.
- SCHUCH, J. J. J. et al. Gender differences in major depressive disorder: results from the Netherlands study of depression and anxiety. Journal of Affective Disorders, v. 156, p. 156-163, 2014. PMID: 24388685.
- LAMERS, F. et al. Depression profilers and immuno-metabolic dysregulation: longitudinal results from the NESDA study. Brain, Behavior, and Immunity, v. 88, p. 174-183, 2020. PMID: 32272220.
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- STEWART, J. W. et al. DSM-IV depression with atypical features: is it valid? Neuropsychopharmacology, v. 34, n. 13, p. 2625-2632, 2009. PMID: 19727067.
- LEE, S.; NG, K. L.; TSANG, A. Prevalence and correlates of depression with atypical symptoms in Hong Kong. Australian and New Zealand Journal of Psychiatry, v. 43, n. 12, p. 1147-1154, 2009. PMID: 20001414.
