Saúde mental · 18 ago 2026
Como ajudar alguém a procurar ajuda em saúde mental?
A distância entre começar a sofrer e sentar na primeira consulta se mede em anos. Reuni o que a pesquisa mostra sobre o que enche esse intervalo, e sobre o peso que uma pessoa próxima tem para encurtá-lo.
Você costuma perceber antes dela, e quase sempre na mesma ordem. Primeiro ela falta no almoço de domingo, com um motivo razoável. Depois começa a cancelar em cima da hora, e o motivo continua razoável. Um dia você repara que faz meses que ela não conta nada do trabalho sem parecer exausta, e pensa em dizer alguma coisa, e não diz, porque acha que vai invadir, ou que está exagerando, ou que ela vai se fechar ainda mais. Você digita a mensagem e apaga.
Essa cena chega ao meu consultório antes da pessoa. Quem vem primeiro é quem está em volta, com a mesma pergunta, se dá para fazer alguma coisa ou se é preciso esperar a pessoa querer. A pesquisa tem o que dizer sobre isso, e o que ela diz não é esperar.
Entre o começo e a primeira consulta passam anos
Philip Wang, Ronald Kessler e equipes de 15 países reuniram em 2007 entrevistas domiciliares com 76.012 adultos para medir um intervalo específico, o que separa o primeiro episódio de um transtorno mental da primeira consulta com um profissional. Entre quem acabou procurando, a mediana da demora ficou entre 3 e 30 anos nos transtornos de ansiedade e entre 1 e 14 anos nos transtornos de humor, variando de país para país. No próprio ano em que o transtorno começou, a proporção de pessoas que procurou atendimento foi de 0,8% a 36,4% na ansiedade e de 6% a 52,1% no humor.
O que esses números dizem não é que as pessoas não procurem ajuda. A maioria procura, em algum momento. O problema é o tamanho do intervalo, e ele foi maior nos países em desenvolvimento, entre os homens e entre quem adoeceu mais cedo. São anos de vida vividos por dentro de um transtorno que já tinha tratamento disponível do lado de fora.
Quem está em sofrimento costuma achar que não é para tanto
Uma pista do que enche esse intervalo apareceu num grupo que, em tese, deveria ser o mais bem informado de todos. Rui She e colegas, na Universidade Chinesa de Hong Kong e em universidades da China continental, entrevistaram no começo de 2020 quase 9.500 profissionais que trabalhavam no controle da COVID-19, e analisaram em separado os 3.417 que apresentavam sinais prováveis de problema de saúde mental. Desses, 12,7% tinham procurado ajuda profissional.
Os motivos mais dados para não procurar não foram desconhecimento nem descrença no tratamento. O primeiro, com 64,4%, foi a crença de que saúde mental não era prioridade naquele momento. O segundo, com 56,4%, foi falta de tempo. O terceiro, com 32,7%, foi falta de psicólogo disponível.
Reconheço a primeira dessas barreiras em quase toda semana de consultório. É raro alguém me dizer que não vai procurar ajuda porque não acredita em tratamento. O que dizem é que agora não é hora, que tem coisa mais urgente, que primeiro precisam resolver o trabalho, a mudança, o filho. Na linguagem do modelo de crenças em saúde, isso é gravidade percebida baixa somada a barreira alta, que é o desenho exato de quem não vai.
Acreditar que o tratamento funciona move mais do que o susto
Jin Kim e Nolan Zane, na Universidade da Califórnia em Davis, compararam, num estudo publicado em 2016, a intenção de procurar ajuda de 395 estudantes asiático-americanos e 261 estudantes brancos, todos com nível elevado de sofrimento psíquico. Os asiático-americanos tinham intenção menor de procurar ajuda, e o que explicou parte dessa diferença foi a percepção de benefício, o quanto cada um acreditava que o tratamento adiantaria. Eles também percebiam mais barreiras que os brancos, mas essa parte, sozinha, não explicou a diferença entre os grupos.
A recomendação dos autores é direta. Ações de divulgação que enfatizem especificamente o benefício de procurar um serviço de saúde mental podem ser um caminho promissor para reduzir a subutilização. Isso conversa com o que a metanálise de Christopher Carpenter mostrou em 2010 para comportamento de saúde em geral, que benefício e barreira previram o comportamento com força bem maior do que gravidade e risco percebidos.
O empurrão de quem está perto conta como parte do tratamento
Haojing Wang e colegas, na Guangdong Ocean University, na China, aplicaram em 2024 o modelo a 446 universitários para entender o que decide alguém a procurar apoio psicológico. As seis crenças medidas, risco, gravidade, benefício, barreira, autoeficácia e gatilho, apareceram todas associadas à intenção de procurar ajuda. Na regressão, duas se destacaram por conta própria, a autoeficácia e o gatilho.
O achado que mais me interessa está no caminho entre elas. Perceber-se sob risco de adoecer, sozinho, não bastava. O efeito passava pelo gatilho, e o gatilho, no estudo deles, era ter recebido incentivo ou conselho de alguém. Quem se percebia sob alto risco de desenvolver um transtorno mental e tinha recebido encorajamento para procurar ajuda foi quem mais se mostrou motivado a procurar.
Traduzindo para a mesa da cozinha, aquilo que a gente chama de apoio é, no desenho dos pesquisadores, o item que transforma percepção de risco em consulta marcada. A conversa que você está evitando ter não é um gesto simpático à margem do tratamento. Ela é uma das variáveis.
Dá para preparar alguém antes de precisar?
Uma equipe da STIKes Mitra Husada Medan levou em 2025 quatro encontros de 60 minutos, um por semana, a 50 adolescentes de 12 a 16 anos de uma vila rural do norte de Sumatra, na Indonésia. O conteúdo era exatamente essas crenças, aplicadas à saúde mental. O grupo que participou terminou com escore médio de 87,6 em acesso ao cuidado, contra 76,5 no grupo que não participou. Entre quem participou, a proporção na faixa de ansiedade baixa subiu de 72% para 92%, e os 3 que tinham começado na faixa de ansiedade alta terminaram fora dela.
O estudo é pequeno, de uma comunidade só, com medidas de autorrelato e sem seguimento longo, e os próprios autores listam essas limitações antes de qualquer leitor apontar. Ele não prova que quatro conversas previnem transtorno mental. Mostra que dá para mexer nessas crenças antes de a pessoa precisar delas, e que adolescente responde a isso.
O que eu peço para a família quando a pessoa chega
Quem convenceu alguém a marcar costuma achar que o trabalho terminou ali, e é justamente ali que ele começa a ficar difícil. Peço duas coisas, as duas pequenas. A primeira é continuar por perto depois da primeira consulta, porque tratamento em saúde mental tem uma fase inicial em que nada parece estar acontecendo, e é nessa fase que a maior parte da desistência mora. A segunda é falar do tratamento como algo que costuma ajudar, sem prometer resultado, porque é essa crença que a pesquisa liga a procurar e a permanecer.
Peço também que ninguém assuma o papel de fiscal. Perguntar todo dia se tomou o remédio transforma quem cuida em cobrador e quem está adoecido em devedor, e o custo disso aparece na consulta seguinte. Perguntar de vez em quando como está sendo, e escutar a resposta inteira, faz mais.
Se você está agora com uma mensagem digitada e não enviada, o gesto que cabe hoje é menor do que parece. Não tente convencer ninguém de um diagnóstico, e não marque a consulta por ela. Diga o que você viu, sem interpretar, e diga que acha que conversar com alguém ajudaria, numa frase que caiba na tela. É esse tipo de incentivo que aparece nos estudos transformando percepção de risco em procura de ajuda. Você não vai desmanchar o nó sozinho, e ninguém desmancha, mas é você quem está com um fio na mão. Nada disso substitui a avaliação individual de quem acompanha vocês.
Perguntas frequentes
Meu filho não quer ir ao psicólogo. Eu devo obrigar?
Obrigar costuma render resistência, e convidar de novo costuma render mais. No estudo com 446 universitários chineses publicado em 2024, o que mais moveu alguém a procurar apoio psicológico foi ter recebido incentivo ou conselho de outra pessoa, junto com a confiança de conseguir dar esse passo. Convide sem prazo, ofereça ir junto na primeira vez e diga o que você observou, sem rótulo. Se houver risco à vida, a urgência muda tudo e você procura ajuda imediatamente.
O que eu digo para alguém que está passando por depressão sem magoar?
Fale do que você viu, não do que você concluiu. Frases descritivas, do tipo eu reparei que você tem dormido mal e cancelado bastante coisa, abrem conversa. Diagnóstico na boca de quem não é o profissional costuma fechar. A pesquisa mostra que a crença de que o tratamento adianta é o que mais se associa a procurar ajuda, então vale dizer que conversar com alguém costuma ajudar, sem prometer resultado.
Dá para confiar quando a pessoa diz que não é para tanto e que vai passar?
Pode ser, e ainda assim vale avaliar. Na pesquisa com 3.417 profissionais de saúde com sinais de sofrimento durante a pandemia, o motivo mais citado para não procurar ajuda foi justamente achar que saúde mental não era prioridade naquele momento, com 64,4%. Achar que não é para tanto é o que mais aparece atrasando o cuidado. Uma avaliação que conclui que está tudo bem também é um bom resultado.
Quando devo insistir para alguém procurar ajuda em saúde mental?
Menos do que a intuição sugere. No levantamento da Organização Mundial da Saúde em 15 países, com 76.012 adultos, a mediana da demora entre o início do transtorno e a primeira consulta chegou a 30 anos na ansiedade e a 14 anos no humor, dependendo do país. Sofrimento que já dura semanas, atrapalha o sono, o trabalho ou os vínculos, já é motivo de conversa com um profissional.
Dá para ajudar alguém que não aceita que tem um problema?
Dá, e o caminho costuma ser pelo custo do dia a dia, não pelo nome do diagnóstico. Falar do sono ruim, do cansaço e da vontade que sumiu costuma passar por onde a palavra depressão trava. Numa revisão de 34 estudos publicada em 2022, ter uma rede social positiva aumentou a chance de a pessoa usar serviços formais de apoio. Continuar por perto é a parte que funciona mesmo quando a conversa não avança.
Referências
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