MARCELO GOBBO JR.Artem Curant Medicina de Família e Saúde Mental

Saúde mental · 14 ago 2026

Minha cabeça não para, isso é TDAH ou ansiedade?

Uma cartela pela metade, com o nome de outra pessoa na etiqueta da farmácia, virou um jeito comum de a queixa de concentração chegar ao meu consultório. Costuma vir com a pergunta já pronta, se é TDAH. Aqui está o que eu olho antes de responder.

8 min de leituraTDAHansiedadeadulto jovemconcentraçãomedicina de família
Uma mesa de estudo à noite, vista de cimaVista de cima de uma mesa de estudo iluminada por um abajur, com um caderno coberto de anotações miúdas, uma cartela de comprimidos pela metade, uma caneta e uma caneca, em tons pastel.
A mesa de estudo com o caderno cheio de anotações e a cartela pela metade, que chegaram juntos à consulta.

Ela pôs sobre a mesa uma cartela pela metade, com o nome de outra pessoa na etiqueta da farmácia. Contou, sem rodeio, que tomava meio comprimido nas noites de estudo e um inteiro na véspera das provas do concurso, e que fazia isso havia 18 meses. Não tinha receita, tinha uma colega de cursinho que tinha. O que ela queria da consulta era o carimbo, o diagnóstico que explicasse por que não conseguia estudar depois do trabalho, e a receita que tornasse legal o que já vinha fazendo.

Contei a ela que essa cena tem estatística. Uma revisão sistemática conduzida por Safia Sharif e colegas, na Universidade de Hertfordshire, no Reino Unido, reuniu em 2021 os estudos sobre o uso de estimulantes como auxílio de estudo entre universitários, e registra que quem usa costuma ser gente sem transtorno diagnosticado, buscando mais alerta, concentração ou memória, com as substâncias vindo em boa parte de amigos e de familiares. Uma revisão publicada dois anos depois por Sebastian Magnotti e colegas acrescenta o detalhe que costuma surpreender quem chega assim, e que eu repito toda vez que a cartela aparece na mesa.

Estimulante não melhora o desempenho cognitivo de quem não tem TDAH. A revisão diz isso com todas as letras, que o aprimoramento cognitivo é a razão principal do uso e que ele não acontece em adultos saudáveis. O que a pessoa sente quando toma é outra coisa: menos sono, mais disposição, a sensação de estar rendendo. A sensação de render e o render não são a mesma medida.

Cabeça cheia não é cabeça dispersa

Quando ela descreveu a rotina, apareceu o que mudou a consulta inteira. Para cada semana de estudo montava um cronograma detalhado, com as matérias separadas por cor, os imprevistos já previstos e um plano reserva para o caso de o dia sair do lugar. Imprimia material de sobra, chegava sempre adiantada, e passava a véspera com a cabeça girando sem conseguir desligar.

Isso não é o desenho do TDAH. Uma pessoa com déficit de atenção sustentado tem dificuldade justamente em armar e manter esse tipo de planejamento minucioso, que exige memória de trabalho e sequenciamento. A queixa dela era de não conseguir estudar, e a razão não era a cabeça vazia demais, era a cabeça cheia demais. Cabeça cheia e cabeça dispersa chegam com a mesma frase, não consigo me concentrar, e não são a mesma coisa.

Vale dizer que o TDAH no adulto existe, é comum e é subtratado. O levantamento nacional americano coordenado por Ronald Kessler, em Harvard, estimou em 2006 a prevalência de TDAH atual em adultos de 4,4%, com alta comorbidade com outros transtornos e com a maioria dos casos sem tratamento. Não estou dizendo que se diagnostica demais. Estou dizendo que a mesma queixa cabe em dois quadros diferentes, e que a diferença muda o tratamento inteiro.

Puxando o fio

Melhorou com o comprimido do amigo, logo é TDAH?

Esse raciocínio parece lógico e não é. Se o estimulante não aumenta o desempenho de quem não tem o transtorno, a sensação de melhora não distingue quem tem de quem não tem. Muita gente sem TDAH sente que rendeu, porque dormiu menos e ficou mais desperta, e isso não é a mesma coisa que corrigir um déficit.

No caso dela havia ainda um sinal na direção contrária. A resposta ao estimulante era abaixo do que se esperaria de alguém com o transtorno, e é essa resposta morna, e não a melhora, que costuma me fazer desconfiar de que o problema é outro.

Preciso dizer uma coisa que complica de propósito o que eu acabei de simplificar. Não é sempre um ou outro. O mesmo levantamento americano registra que o TDAH no adulto vem acompanhado de outros transtornos com muita frequência, e ansiedade é dos vizinhos mais comuns. Existe gente que tem os dois, e nesse caso tratar só um deixa metade do problema de pé. O que eu recuso é o caminho curto, o de olhar para a dificuldade de concentração e escrever o primeiro nome que ela sugere.

O que eu pergunto quando a queixa é concentração

Três coisas mudam o rumo da conversa. A primeira é quando começou, porque o TDAH não aparece na vida adulta do nada, e a história de infância e de escola precisa estar lá. A segunda é o que acontece dentro da cabeça na hora de estudar, se ela some do texto e vai para outro lugar, ou se ela fica ocupada demais, com preocupação girando por cima da leitura. A terceira é o que acontece quando o plano dá errado, porque a intolerância à mudança de planos e a necessidade de controle apontam para outro território.

No caso dela apareceu também o que costuma estar embaixo. O medo de decepcionar quem apostou nela, a necessidade de mostrar que dava conta de trabalhar e estudar ao mesmo tempo, a sensação de que o desempenho é a moeda do reconhecimento. Isso não é achado de exame, é o que a pessoa conta quando o consultório fica em silêncio o suficiente.

O corpo entra no tratamento, e não como conselho de rodapé

Quando o quadro é ansiedade, o exercício deixa de ser recomendação genérica de fim de consulta. A meta-análise conduzida por Brett Gordon e colegas, na Universidade de Limerick, na Irlanda, reuniu em 2017 os ensaios randomizados de treino de força e ansiedade, com 16 artigos e 922 participantes, e encontrou redução dos sintomas com tamanho de efeito de 0,31. Os próprios autores abrem o texto lembrando que o exercício aeróbico já tem efeito positivo bem documentado sobre a ansiedade, e que a lacuna era justamente a musculação.

Traduzindo o número, 0,31 é um efeito pequeno a moderado, do tipo que não substitui tratamento em quadro grave e que soma bastante quando entra junto. Foi por isso que a conversa sobre voltar a caminhar e a nadar ocupou tanto tempo quanto a conversa sobre medicação, e não os cinco minutos finais.

Ponto por ponto

Por onde começar quando tudo precisa mudar

Ela fuma há anos e sabe que faz mal, e ainda assim o cigarro não foi o primeiro item da lista. A nicotina alivia a ansiedade na hora, e retirar esse alívio antes de a ansiedade estar sendo tratada costuma derrubar a tentativa. O que sobra de uma tentativa derrubada não é neutro. Sobra a impressão de que não vai dar certo, e essa impressão cobra caro na próxima.

Ela tem peso medido. Uma meta-análise conduzida por Chad Gwaltney e colegas, na Universidade Brown, nos Estados Unidos, reuniu em 2009 os 54 estudos que acompanharam fumantes ao longo do tempo e mostrou que a confiança da própria pessoa em conseguir se manter sem fumar prevê o resultado, com diferença de 0,21 desvio-padrão quando medida antes da tentativa e de 0,47 quando medida depois de já ter parado. Os próprios autores avisam que a associação é menos robusta do que a teoria previa, e mesmo assim ela está lá em 54 estudos.

Sobre a ordem das mudanças, a evidência é mais modesta do que a intuição. Uma revisão sistemática coordenada por Erica James, na Universidade de Newcastle, na Austrália, encontrou em 2016 apenas 6 ensaios randomizados comparando mudar tudo de uma vez com mudar em etapas, e conclui que as duas abordagens devem ser consideradas igualmente eficazes. Dos 3 ensaios que mostraram alguma diferença, 2 favoreceram a abordagem em etapas justamente para o cigarro. Começar pelo alvo mais fácil é aposta clínica, e não regra provada, e a aposta é feita em cima do preditor que existe: uma vitória possível primeiro, para a mudança difícil chegar com outro histórico atrás dela.

Nada disso serve de argumento para não parar. A meta-análise conduzida por Gemma Taylor e colegas, na Universidade de Birmingham, no Reino Unido, reuniu em 2014 os estudos que acompanharam pessoas antes e depois de parar de fumar, e encontrou menos ansiedade, menos depressão e menos estresse em quem parou, com tamanho de efeito de 0,37 para ansiedade. Parar de fumar melhora a ansiedade a médio prazo, e o que se combina na consulta é quando tentar.

O que muda quando o nome muda

Trocar a hipótese não é trocar uma palavra por outra no papel. Muda o alvo do tratamento, muda o que se espera de melhora e em quanto tempo, e muda o que a pessoa entende sobre si mesma. Sair da consulta achando que tem um defeito de atenção que precisa ser compensado com comprimido emprestado é uma história. Sair entendendo que a cabeça está ocupada demais porque existe uma ansiedade acontecendo, e que existe tratamento para isso, é outra.

Nada disso se resolve numa consulta, e não é para resolver. O que se faz no primeiro encontro é montar a hipótese, combinar o que vai ser tentado, dizer o que pode acontecer de efeito indesejado e marcar quando a gente se fala de novo. No caso dela, combinei ligar em uma semana. Esse telefonema é parte do tratamento, não cortesia.

Se você se reconheceu nessa cena, o gesto que cabe hoje ou amanhã é pequeno e não depende de diagnóstico nenhum. Na próxima vez que você sentar para estudar ou para trabalhar e não conseguir, pare por um minuto e responda a uma pergunta só, se a sua cabeça saiu do lugar ou se ela está cheia demais para caber mais alguma coisa. A resposta não fecha diagnóstico, e é o primeiro fio de que quem vai te avaliar precisa. Puxe esse fio devagar, porque novelo embolado não desmancha na força, e leve o que aparecer para uma avaliação individual, que é onde essa conversa rende de verdade.

Perguntas frequentes

Como sei se é TDAH ou ansiedade se os dois dão falta de concentração?

Repare no que acontece dentro da cabeça na hora da tarefa. No déficit de atenção a cabeça sai do lugar e vai para outro assunto; na ansiedade ela fica ocupada demais, com preocupação girando por cima do que você tenta ler. Outro sinal é a capacidade de planejar: quem consegue montar planos minuciosos e sofre quando eles mudam costuma estar mais perto da ansiedade. Isso orienta a conversa e não fecha diagnóstico, que depende de avaliação individual.

Posso confiar no teste de tomar o remédio de TDAH de um amigo?

Não prova. Uma revisão sistemática sobre uso de estimulantes como auxílio de estudo registra que o aprimoramento cognitivo é a principal razão alegada e que ele não ocorre em adultos saudáveis. O que a pessoa costuma sentir é menos sono e mais disposição, o que não é a mesma coisa que corrigir um déficit de atenção. Usar medicação controlada de outra pessoa também traz risco clínico e legal. Leve a questão para avaliação em vez de testar por conta própria.

É normal descobrir TDAH só na vida adulta?

O diagnóstico exige história que venha da infância, então o quadro não surge do zero no adulto, ainda que só receba nome depois. O TDAH no adulto é comum e subtratado: o levantamento nacional americano coordenado por Ronald Kessler estimou prevalência atual de 4,4% em adultos, com alta comorbidade e a maioria dos casos sem tratamento. Quando a dificuldade começa no fim da adolescência ou depois, vale procurar outra explicação antes.

Dá para tratar ansiedade com exercício ou isso é só conselho?

Ajuda, e existe medida disso. Uma meta-análise de ensaios randomizados com 16 artigos e 922 participantes encontrou redução dos sintomas de ansiedade com treino de força, com tamanho de efeito de 0,31, e os autores lembram que o exercício aeróbico já tinha efeito positivo bem documentado. É um efeito pequeno a moderado, que não substitui tratamento em quadro grave e que soma bastante quando entra junto com o resto.

Quando devo parar de fumar se estou tratando ansiedade?

Parar de fumar melhora a ansiedade, e ainda assim vale combinar o momento. Uma meta-análise encontrou menos ansiedade em quem parou, com tamanho de efeito de 0,37, em comparação com quem continuou fumando. O que pesa contra tentar cedo demais é a confiança: uma meta-análise de 54 estudos mostrou que acreditar que vai conseguir prevê o resultado, e uma tentativa derrubada mexe justamente nisso. Não existe prova de que mudar em etapas seja melhor do que mudar tudo junto, então combine a sequência com quem te acompanha.

Referências

  1. SHARIF, S.; GUIRGUIS, A.; FERGUS, S.; SCHIFANO, F. The use and impact of cognitive enhancers among university students: a systematic review. Brain Sciences, v. 11, n. 3, 355, 2021. PMID: 33802176.
  2. MAGNOTTI, S.; BEATTY, A.; BICKFORD, E.; CHANNELL, I.; WEYANDT, L. Prescription stimulant misuse among nursing students: a systematic review. Journal of Addictions Nursing, v. 34, n. 3, p. 216-223, 2023. PMID: 37669341.
  3. KESSLER, R. C. et al. The prevalence and correlates of adult ADHD in the United States: results from the National Comorbidity Survey Replication. The American Journal of Psychiatry, v. 163, n. 4, p. 716-723, 2006. PMID: 16585449.
  4. GORDON, B. R.; McDOWELL, C. P.; LYONS, M.; HERRING, M. P. The effects of resistance exercise training on anxiety: a meta-analysis and meta-regression analysis of randomized controlled trials. Sports Medicine, v. 47, n. 12, p. 2521-2532, 2017. PMID: 28819746.
  5. GWALTNEY, C. J.; METRIK, J.; KAHLER, C. W.; SHIFFMAN, S. Self-efficacy and smoking cessation: a meta-analysis. Psychology of Addictive Behaviors, v. 23, n. 1, p. 56-66, 2009. PMID: 19290690.
  6. JAMES, E.; FREUND, M.; BOOTH, A.; DUNCAN, M. J.; JOHNSON, N.; SHORT, C. E. et al. Comparative efficacy of simultaneous versus sequential multiple health behavior change interventions among adults: a systematic review of randomised trials. Preventive Medicine, v. 89, p. 211-223, 2016. PMID: 27311332.
  7. TAYLOR, G.; McNEILL, A.; GIRLING, A.; FARLEY, A.; LINDSON-HAWLEY, N.; AVEYARD, P. Change in mental health after smoking cessation: systematic review and meta-analysis. BMJ, v. 348, g1151, 2014. PMID: 24524926.
Dr. Marcelo Gobbo Jr.

Dr. Marcelo Gobbo Jr.
Médico de Família e Comunidade (CRM-MG 74.511 · RQE 69038), mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia e pesquisador associado no Departamento de Psiquiatria da Yale School of Medicine, junto ao Program for Recovery and Community Health. Atende famílias atípicas e pessoas que convivem com o transtorno mental grave, no consultório e à distância.

Um cuidado que enxerga o todo

Se a sua família procura um médico que acompanhe de perto, ao longo do tempo, vamos conversar. O atendimento é presencial em Uberlândia e por videoconferência, para todo o Brasil e o mundo.

Agendar uma conversa

Você pensou em alguém enquanto lia? Envie este texto a essa pessoa: às vezes um bom texto, na hora certa, é onde um cuidado começa.

Link copiado!